Uma baleia pode ser dilacerada como uma escola de samba (mariana meliande e felipe m. bragança, 2025)
No próximo carnaval, a baleia ou o capitão?
Escrito por Samuel Kauã
Revisado por Giovanna Celestino
No próximo carnaval, a baleia ou o capitão?
Escrito por Samuel Kauã
Revisado por Giovanna Celestino
18 de setembro de 2025
No 5º dia de Mostra Caleidoscópio no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a programação seguiu com o longa Uma baleia pode ser dilacerada como uma escola de samba (Marina Meliande e Felipe M. Bragança, 2025). A intenção da mostra é enfatizar a direção artística e apresentar filmes que desafiam a narrativa e a estética tradicionais dos gêneros cinematográficos.
O longa aborda o imaginário que cerca o Rio de Janeiro e traz Arrábi, que herdou uma escola de samba do pai, mas que agora está falida. De forma poética e melancólica, o filme mostra a brutalidade do passar do tempo, a necessidade da arte para lidar com a vida, reflete sobre as memórias e se pergunta como “uma escola de samba pode ser dilacerada como uma baleia". Separada em capítulos que são nomeados em referência a um desfile de carnaval, o filme nos conta o fim da Unidos da Guanabara como um verdadeiro samba-enredo, com muitas músicas autorais, que relatam as tristezas do fim de uma escola de samba, críticas sociais e uma excepcional direção de arte.
As apresentações iniciais dos personagens recebem caracterização, música e planos fixos de seus corpos centralizados, olhando diretamente para a câmera e falando um pouco sobre eles, com exceção de Arrábi. Ixmael é colocado como narrador da história, devido a certo distanciamento da cultura do samba - o que gera perguntas sobre o destino dos demais personagens.
Esse é um filme-experimento que contou com a participação de quatro artistas visuais do Rio resultando em mais uma forma de apresentação, dessa vez como uma vídeo-instalação. Esse modo de pensar a produção e a imersão causa no espectador um verdadeiro mergulho na narrativa do filme, pois ele não mostra a totalidade de seu universo, dessa forma instigando o imaginário a preencher o que não compreende. Por se tratar de uma junção de pedaços do passado do personagem principal, a narração em voice-over ajuda muito a montagem, principalmente para situar onde se está na história, assim como trazer carga poética ao filme.
Os sons, músicas e danças expressam os sentimentos, a agonia dos personagens e criam pontes com o espectador. Como no capítulo três, o girar da saia de Estrela é enfatizado por plano detalhe e cria vida com o som, que imita uma rajada de vento cortante. Isso se relaciona com a história que ela contou sobre as baianas que tinham navalhas em suas saias para protegerem o seu dançar. No início, o personagem Ixmael diz “Quem nunca dançou para não precisar matar alguém” e se apresenta dançando. Toda essa linguagem mostra um certo peso que é carregado pelos personagens e aliviado pela dança.
Quando chegamos ao meio da história, no capítulo 4, conhecemos mais de Arrábi, e também vemos o primeiro encontro dele com Branca - um momento mágico entre os dois, e de aprofundamento no protagonista, que revela sua relação com a escola e a morte precoce de seu irmão. Os acontecimentos se relacionam perfeitamente com o nome do capítulo, “RECUO DA BATERIA”, que é o ponto alto da apresentação em um desfile, e aqui traz fatos muito importantes e fortes da história e do protagonista. Mas ao se encaminhar para o final do filme, essa aura some, e somos levados no caminhão que irá se desfazer dos restos de decoração da escola; esse momento é unido a vozes de rádio de desfiles antigos, lembranças do que já foi esquecido.
Em seu epílogo, Arrabi tem a última interação com Branca. A locação muda totalmente para algo mais intimista e as falas cantadas com sons de vento se intensificam. O choro do protagonista vira o mesmo de uma baleia por meio da transição sonora, então percebemos pela fala de Branca: “Esse tempo todo você achou que era o Capitão, mas você era a Baleia”, e finalmente temos a apresentação de Arrabi com plano fixo a olhar para a câmera, como os personagens do início. O sentimento que fica é que fomos dilacerados também ao mergulhar nessa história anônima que o tempo vai levar. Ano que vem tem mais um carnaval, resta saber quem você vai ser: o Capitão ou a Baleia. Como diz Ixmael: “Parece carnaval, mas é sufoco.”