Uma baleia pode ser dilacerada como uma escola de samba (mariana meliande e felipe m. bragança, 2025)
Parece carnaval, mas é sufoco
Escrito por Brisa Praiano
Revisado por Gabriela de Mello
Parece carnaval, mas é sufoco
Escrito por Brisa Praiano
Revisado por Gabriela de Mello
18 de setembro de 2025
Uma baleia pode ser dilacerada como uma escola de samba (Marina Meliande e Felipe M. Bragança, 2025) é um longa-metragem que vai além de seu formato para as telas de cinema. Esse filme-experimento se aproxima do conceito de cinema expandido - busca romper com os modos tradicionais do cinema, ao misturar diferentes técnicas, como instalações, performances, músicas, artes plásticas e cênicas. Assim, o enredo possui elementos narrativos que ajudam a contar a história por meio de diferentes expressões artísticas, enriquecendo a experiência imersiva e sensorial que o longa provoca.
Vemos a trajetória de uma pequena escola de samba, chamada “Unidos da Guanabara”, desde seu navegar até o seu naufrágio (ou falência). Seu carro alegórico possui a temática do mar, sendo uma baleia a figura central da estrutura. O desmonte é trágico e dilacerante - é daí que surge o título da obra. A presença da baleia é tanto física quanto simbólica.
Carro alegórico da escola de samba “Unidos da Guanabara”.
No debate após a exibição, o diretor e roteirista Felipe M. Bragança mencionou que uma das referências para escrever o filme foi Moby Dick (Herman Melville, 1851). Nesse romance, a intensa caça de Ahab pela baleia é semelhante ao desgaste do personagem principal (Ítalo Martins), que luta pela manutenção de sua escola de samba. A partir de diferentes escolhas estéticas, como números musicais e quebras de quarta parede, o filme retrata uma realidade pouco vista, sintetizada pelo verso de uma das músicas que compõem o filme: “parece carnaval, mas é sufoco.”
Fonte: Material disponibilizado para divulgação no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
O enredo representa uma realidade invisibilizada, o outro lado de quem mantém essas manifestações culturais vivas, sustentando o desfile mesmo com dificuldades financeiras. O universo do carnaval vai além da temática, pois a própria estrutura do filme, dividida em atos, segue a mesma lógica das alas das escolas de samba. Desse modo, o filme incorpora a linguagem carnavalesca como um meio narrativo de condução, como se a própria obra estivesse desfilando.
Fonte: Material disponibilizado para divulgação no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Apesar do fim trágico e dos diferentes problemas que cada uma das personagens enfrenta, a arte se mostra um refúgio à tristeza ao longo da narrativa. Isso é notado, por exemplo, na cena em que os moradores do bairro veem que a escola de samba acabou e começam a cantar para os integrantes do falecido grupo. Esse gesto é o modo como o povo expressa sua tristeza, consolando-se com uma música que reflete suas angústias do momento.
É cultural do Rio, mas também do Brasil, utilizar a arte como resistência às adversidades da vida, e esse longa, diferente de tudo que já vi, exalta o valor de todo e qualquer tipo de arte. Seja na vida ou no cinema, toda manifestação artística tem um poder transformador e sempre será um meio de enriquecer a realidade.