Terceiro milênio (Jorge Bodanzky, 1982)
Traçados coloniais
Escrito por Davi Pieri
Revisado por Gabriela de Mello
Traçados coloniais
Escrito por Davi Pieri
Revisado por Gabriela de Mello
14 de setembro de 2025
Talvez os dois grandes méritos de Terceiro Milênio (1982), filme de Jorge Bodanzky exibido na mostra Clássicos do Cinema Brasileiro na 58º edição do Festival, sejam: ter encontrado um personagem como o senador Evandro Carreira; e conseguir capturar este personagem com o uso da câmera na mão como uma verdadeira caneta, que circunscreve e reescreve o espaço filmado a partir de sua movimentação. Nesse sentido, Terceiro Milênio em muito me remeteu à Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967): uma figura política que - embora no caso de Evandro não seja demagógico nas suas ideias como o é Porfírio Diaz (Paulo Autran), acaba sendo enquanto um demagogo da atenção - é filmada sob um olhar vacilante que busca por meio de uma confrontação visual direta com esta figura explorar as contradições entre a liderança política e o povo.
A questão desta tal "demagogia da atenção", como nomeei aqui, é importante, porque é aí que se circunscreve uma relação bastante direta entre Evandro Carreira e a personagem de Autran no filme de Glauber. Em relação ao conteúdo de suas falas, Carreira seria considerado facilmente uma figura de esquerda hoje - mais à esquerda do que a grande parte do que se chama de progressismo atualmente, representado pelas alas majoritárias do PT, PSOL, PCdoB, etc. Contudo, o senador pratica uma espécie de "demagogia da atenção" ao roubar, constantemente, o protagonismo do povo para seu protagonismo próprio, de seu projeto eleitoral a partir de sua grandiloquência e de um comportamento essencialmente paternalista perante os indígenas e madeireiros.
Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967)
Terceiro Milênio (Jorge Bodanzky, 1982)
Assim, a câmera de Bodanzky está sempre caminhando entre: de um lado, o povo, que ganha visibilidade e voz a partir do olhar da objetiva e do aparato sonoro do filme. Do outro, este senador, homem branco que entra em contradição com o povo indígena Ticuna ao tentar propor mais soluções das quais estes manifestam estarem cansados de receber, sem mudanças reais na própria vida (pelo contrário), desde a primeira chegada dos colonizadores. É possível pensar o elemento da visibilidade no filme de Bodanzky por meio do que o filósofo francês Jacques Rancière postula contemporaneamente como "(re)partilha do sensível", ato estético-político de reorientar a visibilidade, voz e demarcação ontológica de que pessoas e grupos merecem um lugar enquanto Ser-Aí (ativos e conscientes em sua condição existencial). A partir desta reflexão, é como se som e imagem de Terceiro Milênio tentassem constantemente reorientar a partilha do sensível dada como norma - esta que isola as comunidades indígenas e o interior amazonense; porém, a figura de Evandro, contraditoriamente à sua retórica política, surge como barreira à esta reorientação, como forma de manutenção do status quo de quem pode ser visto e ouvido. Ou seja, ainda que falando da exploração dos povos indígenas, o lugar de visibilidade e voz está no homem branco "eloquente", e não nos indígenas explorados.
Ainda como Porfírio Diaz, de Terra em Transe, Evandro Carreira olha para a Amazônia como uma espécie de Eldorado possível, uma civilização utópica do "novo homem". Consciente tanto da posição estética do senador e de seu idealismo grandiloquente, o filme de Jorge Bodanzky usa das contradições entre a liderança política e o povo representado como a principal tensão subentendida em cada sequência, semelhante ao que faz Glauber Rocha (porém, este, em nível mais frontal, dentro da ficção, e direcionado ao alegórico e ao absurdo). Desta maneira, Terceiro Milênio é um excelente exemplo da estética enquanto política a partir do fenômeno que Rancière identificou como partilha do sensível, sendo, para tanto, uma espécie de pós-Terra em Transe documental, tensionando limites entre personagem ficcional e personagem real a partir de seu protagonista. Por tudo isso é, também, dos grandes documentários etnográficos do cinema brasileiro.