Terceiro milênio
(Jorge Bodanzky, 1982)
Escrito por Rafael Ramagem
Revisado por Davi Pieri
Escrito por Rafael Ramagem
Revisado por Davi Pieri
14 de setembro de 2025
Em uma das falas de Jorge Bodanzky durante a apresentação do filme, exibido na mostra de clássicos do cinema brasileiro na 58ª edição do Festival de Brasília, foi dito que o alemão Wolf Gauer, um dos diretores, havia sido picado por um mosquito nos primeiros dias de filmagem na Amazônia e hospitalizado logo em seguida, deixando Jorge Bodanzky, diretor e fotógrafo, e David Pennington, técnico de som, sozinhos na função de concluir o filme que, há pouco, havia iniciado a produção.
Filmes não se dissociam de seus contextos de produção. Fatores limitantes, como equipes reduzidas e equipamentos precários, podem definir toda a abordagem de encenação de um cineasta e, consequentemente, seu estilo. Limitação técnica nunca será parâmetro de qualidade e pode, inclusive, ser o fator enriquecedor de uma obra. Vejo que, neste filme, a existência de uma única câmera operada pelo diretor, naturalmente incapaz de gravar vários ângulos simultâneos da mesma ação, foi o que me pareceu tê-lo libertado das amarras do planejamento hierárquico de constituição de imagens. Pois, aqui, a mise en scène precisou ser construída em simultaneidade com a ação, ditada pela sensibilidade subjetiva imediata do autor e pela imprevisibilidade da vida, do gesto, do sorriso. O mesmo pode ser dito sobre o som, manipulado por Pennington, que, na pluralidade de vozes entre aldeias, rios e conferências, precisou estar mais atento ao sensível, à subjetividade da fala e aos ruídos, atuando, na verdade, como coautor da obra.
Quando Bodanzky se confronta com o olhar de jovens mulheres e os semblantes de crianças inocentes, decidindo filmá-las, como muito fez em Iracema – Uma Transa Amazônica (1975), suspendendo a imagem que ilustrava a retórica, abre-se um leque de possibilidades dialéticas. Essas quebras tensionam o discurso político, junto à poesia inerente a essas imagens e colocam em evidência um dos temas do filme: a contradição.
O “homem do terceiro milênio”, Evandro Carreira, motor da narrativa, então senador do estado do Amazonas, inimigo do extrativismo, defensor, emancipador e infantilizador dos povos indígenas é um político que, em semi-desnudez, não esconde suas politicagens frente à câmera. Por consequência, mesmo com suas particularidades, que são muitas, revela também o modus operandi de uma luta da esquerda oitentista pré-abertura que não vingou e da figura paternalista do colonizador em um mundo de efervescentes lutas decoloniais. De todo modo, não são postas em dúvida suas intenções ao vislumbrar uma Amazônia soberana, e faz-se o retrato de um líder reformista que custa a existir no Brasil do terceiro milênio. Sem dúvidas, um dos mais interessantes personagens do cinema brasileiro.
A câmera de Bodanzky não procura trair os personagens nem captá-los em deslizes; estes ocorrem naturalmente. Resta aos cineastas apenas o papel de observar com suposta neutralidade, já que a verdadeira neutralidade inexiste, deixando que a contradição emerja por si.