Nosferatu (Cristiano Burlan, 2025)
Para Nosferatu basta sentir
Escrito por Maria Luiza Mesquita
Revisado por Letícia Negreiros
Para Nosferatu basta sentir
Escrito por Maria Luiza Mesquita
Revisado por Letícia Negreiros
16 de setembro de 2025
A figura do Nosferatu, desde sua criação da obra clássica de F.W Murnau feita em 1922, exerceu uma grande influência no universo cinematográfico de terror. Desde então, a maioria de suas releituras no cinema trazem para si essa figura de um vampiro macabro e aterrorizante, o imaginário de um monstro. Mas a representação do vampiro de Nosferatu de Cristiano Burlan, que teve sua estreia nesta segunda-feira na Mostra Caleidoscópio do 58º Festival de Brasília, contraria boa parte dessas outras versões. Ele apresenta ao público um novo lado dessa figura, um lado mais humano e sensível, que dialoga com uma abordagem mais psicológica e existencial.
O longa é tomado por uma metalinguagem que transborda entre o cinema e o teatro. A escolha de Burlan em navegar entre essas duas artes parece vir não somente da sua história pessoal com o teatro, da qual busca trazer bastante inspiração, mas também da necessidade de trazer de forma fundamental a utilização de alguns elementos. Um palco de teatro, que não vai servir somente como um simples cenário, mas sim como metáfora de um espaço para quebrar essa barreira ilusória cinematográfica, e lembrar que não assistimos somente a um filme de terror, mas sim a encenação do próprio ato de representar.
Alguns de seus personagens bebem da fonte dessa mesma forma de linguagem. O fantasma de Ophelia, que rodeia Nosferatu, o assombrando com seus diálogos cínicos e sarcásticos, por exemplo, é uma personagem que existe na própria cinematografia de Burlan, que dá vida (ou morte) para Ophelia, em sua releitura de Hamlet (Cristiano Burlan, 2014) . É difícil esquecer de mencionar também a ilustre participação de Helena Ignez, que, em uma das cenas finais, faz uma esplêndida homenagem e releitura de sua cena marcante no longa A família do Barulho (Júlio Bressane, 1970), na qual a personagem derrama sangue pela boca. De alguma forma, essas alusões reforçam o caráter metalinguístico e funcionam como um ato simbólico, de um tributo à história do cinema e a persistência da arte.
A narrativa caótica do longa se constrói de forma não linear, assim como a montagem também, que se afasta totalmente das estruturas tradicionais de uma obra que ditam um início-meio-fim. É como se essa construção tivesse sido feita de forma proposital, utilizando dessa fragmentação de misturar o tempo, as imagens e memórias dos personagens para abrir um espaço para essa visão mais poética da coisa.
Os monólogos incessantes dos personagens, carregados de discursos em tom teatral, sobre a natureza da existência, o medo e a angústia, se perpetuam, ao meu ver, como uma busca de trazer para o espectador essa inquietação e desorientação dos personagens para o público. A sensação de estar perdido no tempo, sem começo, meio ou fim. Talvez o cansaço de acompanhar todas essas falas esteja ligado a mesma condição do vampiro, um ser que vive na eternidade da reflexão, preso em pensamentos circulares, sem fim e sem resolução. Desta forma é como se o incômodo da plateia espelhasse a angústia dos personagens.
Contudo, esse último longa do cineasta brasileiro tem como objetivo revisitar um clássico do cinema, com abordagens carregadas de símbolos e uma estética que se destaca na enorme tela. O seu efeito preto e branco e sua aura gótica e sombria é um desses elementos, que além de homenagear o clássico, é também uma escolha da própria direção em criar uma atmosfera imersiva para quem vê. Em Nosferatu de Burlan, seu gesto procura ressignificar o medo e a poesia, entrelaçando o cinema e o teatro, na busca de uma experiência cinematográfica única. Afinal, como diz uma fala do filme: “Não é tão importante compreender um filme, mas sim, buscar senti-lo.”