Palco-Cama (Jura Capela, 2025)
Um Excêntrico Com Uma Câmera
Escrito por Letícia Negreiros
Revisado por Giovanna Celestino
Um Excêntrico Com Uma Câmera
Escrito por Letícia Negreiros
Revisado por Giovanna Celestino
16 de setembro de 2025
A Mostra Caleidoscópio, parte da programação da 58ª Edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, briga por filmes menos convencionais. Enquanto a Mostra Competitiva se volta para produções brasileiras com um recorte social e histórico abrangente e distintos entre si, através de uma narrativa mais linear, na qual é mais fácil percebermos o início e o fim da história, e com meios de captação de imagens mais comuns de serem vistos por aí, a Caleidoscópio se volta para a experimentação visual e narrativas não lineares. Dá espaço para que esses filmes sejam vistos, apreciados, debatidos. Do que vi da curadoria da mostra, Palco-Cama (2025) de Jura Capela parece abraçar o ideal da maneira mais ímpar. Tece uma forma delicada de romper com as convenções narrativas regentes de nossa percepção cinematográfica, sendo pautado fortemente na emoção e no calor do momento. Contempla aquilo que se pensa de beleza, o belo como aprazível através de uma perspectiva linda de carinho.
Roque Laraia escreve que, sem um sistema articulado de comunicação oral, não haveria cultura. Ao seu modo, José Celso reitera e comprova o pensamento do antropólogo. No longa de Jura Capela, somos transportados ao quarto do ator e convidados para uma conversa. Zé - tomo a liberdade de chamá-lo assim, pois logo nos tornaremos íntimos, assim como todos que assistirem ao filme - nos recebe com uma taça de vinho. Em seguida, começa a falar.
José Celso em Palco-Cama (2025), de Jura Capela
Em dado momento, diz que se sente sufocado pelo silêncio. A janela, que o próprio fechou no começo da gravação, é aberta. Ele preza pelo barulho, o caos, o falatório. O diretor define o filme como brutalista, por se tratar de um resgate quase completo do material bruto da entrevista. Acompanhamos Zé falar, falar e falar… E tudo continuamente, em planos longos e distendidos, com um total de 12 cortes, segundo Capela. Há um receio em interromper o que o ator diz, de perder algo que ele possa dizer. A sensação de intimidade vem justamente desse medo. José fala muito e de tudo um pouco. O próprio Jura quase não o interrompe, perguntando apenas uma vez “e a música?”. A sensação é de sentir vontade de uma conversa infindável. Quase como se fôssemos ao bar, mas não foi suficiente, então, subimos ao apartamento com eles e abrimos um vinho.
A bebida é um personagem, ao seu modo, pois vai influenciar a fala de Zé. Não que ele fique embriagado, mas mais à vontade, confortável com o palco que reclama para si - sua cama. A taça, oscilante em sua mão, é um lembrete e um convite à informalidade. A câmera absorve sua influência. Conforme avançamos na conversa, aproxima-se (demais) de Zé, perde o foco e redireciona os enquadramentos ligeiramente e sem precisão. Ela se curva à fala; Jura se curva à fala. Abre mão desse lugar de decisão, comumente atribuído ao diretor. Tudo se dissolve nas palavras de José Celso.
Palco-Cama nos fornece uma cápsula do tempo. Gravado em 2007, nos transporta para perspectivas de outros momentos, outras visões de mundo. Não é surpreendente ver como Zé pensava à frente daquelas questões. Sempre esteve um pouco à frente. O longa não é apenas o recorte de um tempo, mas o retrato de um excêntrico atemporal. Não me entenda mal quando aqui o chamo de excêntrico. Acredito que ele entenderia o que quero dizer. Era maluco porque era disruptivo, despreocupado, intenso. Para alguém tradicional, quadrado, ele era uma pessoa assustadora. Mas era criativo, engraçado. Excêntrico pela forma como ignorava convenções e fazia questão de ir na direção oposta ao que se esperava de uma pessoa comum. É a expressão máxima de uma figura dionisíaca. Ele encarna a própria mensagem.
José Celso em Palco-Cama (2025), de Jura Capela
Em debate após a sessão, o cineasta cita Caetano Veloso. “"É impressionante a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer". Palco-Cama é fortíssimo. O longa pondera José Celso através da visão que o próprio tinha de si mesmo. Enquanto destrincha suas opiniões sobre artes, sociedade e humanidade, entendemos como ele se coloca no mundo em relação a esses assuntos. É uma intensidade confortável, uma paixão por viver vista à meia-luz. Saímos da sessão com um sentimento insistente, semelhante a uma ressaca, mas infinitamente mais agradável.