Nosferatu (Cristiano Burlan, 2025)
O Animal Que Chora e Ri
Escrito por Letícia Negreiros
Revisado por Iane Áustria
O Animal Que Chora e Ri
Escrito por Letícia Negreiros
Revisado por Iane Áustria
16 de setembro de 2025
“O homem que ri se aproxima”, anuncia em inglês uma das televisões de tubo de Van Helsing. A estática dança sobre a imagem. O caçador fuma, pensativo. Aprecia a encenação na tela, se preparando para o que interpretará em vida. O vampiro de Cristiano Burlan em muito tangencia o personagem do palhaço em O Homem que ri, de Paul Leni (1928). Indo além das diferenças em relação aos perigos do sol e à dieta de sangue, ambos são vítimas de um espetáculo. Para o homem, é uma ideia particular de prisão, determinada a ele quando ainda muito novo por um terceiro. Para a criatura, uma penitência autoimposta, já muito tarde em sua vida imortal.
O Homem que ri é jogado aos palcos sem escolha. Desfigurado e condenado a sorrir eternamente, é colocado na posição de atração, como protagonista nessa peça que sobrevive de sofrimento. Sua presença é almejada, ansiada pelo público que gargalha e aponta. Proporciona esses risos em detrimento da própria felicidade e bem estar. Não gosta das risadas pois ridicularizam quem ele é, não engrandecem algo que faz. “Você é um palhaço de sorte”, pensam os colegas, “você não precisa tirar sua máscara de riso”. A Gwynplaine (Conrad Veidt) é dado o papel de monstro sem nunca contemplar a possibilidade dele ser uma vítima.
Conrad Veidt como Gwynplaine em O Homem Que Ri (1928)
Nosferatu (Cristiano Burlan, 2025) orbita esse espetáculo no qual o vampiro homônimo ‒ interpretado por Rodrigo Sanches ‒ se coloca. Enquanto Gwynplaine cultiva uma aversão aos palcos, o vampiro-título depende deles. Após tantas versões de uma história, gera-se cansaço, não só do público, mas também do personagem. Burlan não só flerta com essa ideia, mas envolve-se profundamente com a perspectiva do vampiro exausto. A figura de Van Helsing (Henrique Zanoni) transfigura-se nessa versão livre. Ainda perseguindo a criatura, se distancia do papel tradicional de caçador e é empurrado para uma posição de guia ‒ não espiritual, mas turístico. Uso esse termo e não o outro pois Van Helsing não é catalisador de percepções maravilhosas ou insights divinos; o vampiro já sabe onde quer chegar, o caçador apenas indica a trajetória. Como se levado a um museu de seus arrependimentos, o caçador o conduz pelas exposições de feitos passados, ajudando-o a entender os impactos na vida do vampiro.
Nessa jornada, Nosferatu é levado até os palcos ‒ ao teatro, para ser mais exata. Voluntariamente se coloca na posição de atração, se jogando aos seus arrependimentos e trajetórias passadas. Um apresentador, curiosamente parecido com Zé do Caixão, o expõe, destrincha tudo para o público selecionado pela criatura. Quando é anunciado com os letreiros de Gwynplaine no começo da narrativa, não se antecipa essa vontade de se exibir. A semelhança entre os espetáculos, no entanto, é a dor: ambos odeiam estar no palco, mas um deles precisa.
Todo o cansaço e sofrimento se transformam em experimentação visual. Imagens com sombras arrastadas e compridas, inspirações resgatadas de Nosferatu, uma Sinfonia de Horror (Friedrich Wilhelm Murnau, 1922), se alternam em uma linha narrativa altamente interpretativa. A influência expressionista dispensaria comentários, mas é interessante notar como ela é impressa na paisagem de Santos. A cidade é moldada em prol de uma atmosfera dramática, tão fria que a cidade só se torna identificável se lhe contarem. A ambientação abraça o vampiro, um último acolhimento, como se reconhecesse seu cansaço e o validasse, mas também o sufoca, recordando-o da finitude que paira sobre ele. A câmera dança de maneira peculiar com os planos, em uma dinâmica com algo de Tramas do Entardecer (Maya Deren e Alexander Hammid, 1943). A ideia de dramaticidade intrínseca ao personagem, cultivada por uma longa tradição cinematográfica e literária, é usada contra ele.
Nosferatu (Cristiano Burlan, 2025)
Nesse espetáculo em que tudo se posiciona como inimigo ‒ apresentador, palco, público e até ele mesmo ‒, Nosferatu se permite ser, simultaneamente e em uma relação de equivalência, monstro e vítima. As pessoas que outrora feriu agora infringem-lhe essas mesmas dores. Até mesmo quando é visualmente monstruoso, ocupa um lugar de vulnerabilidade e pequenez. Se aproxima do humano ao entrar em contato com os tormentos da própria mente. Torna-se um farrapo de sua trajetória, o fantasma de um palhaço triste que não precisa tirar a maquiagem de angústia.