O Agente Secreto
(kleber mendonça filho, 2025)
Escrito por Anna Lia
Revisado por Letícia Negreiros
(kleber mendonça filho, 2025)
Escrito por Anna Lia
Revisado por Letícia Negreiros
14 de setembro de 2025
Este texto contém spoilers.
O momento ou o contexto em que se vê um filme afeta muito a maneira como o espectador se relaciona com ele. Pois, querendo ou não, o onde, quando e como são fatores essenciais para a experiência fílmica. Para mim, as experiências (no plural!) de ver O Agente Secreto - filme de Kleber Mendonça Filho que abre a 58ª edição do Festival de Brasília - o qual, por circunstâncias da vida, eu tive a sorte de assistir em Recife em sua estreia nacional, no Cinema São Luiz e, três dias depois, na sessão extra do filme no Cine Brasília tocam todas as palavras desta crítica. Digo isso não apenas para estabelecer uma conversa afetuosa, mas também para transmitir um pouco como essa semana de festa (por tantos motivos) também tem a comemorar a caminhada que agora se inicia desse filme “pirracento” dentro do nosso país.
Lá em Recife, as circunstâncias que me levaram até o Cinema São Luiz são secretas, mas relato um acontecimento: dentro da sala lotada, um grupo de frevo, tão típico daquela cidade, entra carregando uma bandeira e guiando a equipe do longa ao som de Voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço… A cantoria em grupo já deu o tom do que estávamos experienciando: ninguém conseguia conter a alegria de estar ali. A cidade e o cinema de Recife estavam em festa.
O momento em que começam a cantar Voltei Recife na pré-estreia de
O Agente Secreto no Cinema São Luiz
Já de início, ficou claro que a escolha musical de antes da projeção não era aleatória: o protagonista Marcelo, com interpretação impressionante de Wagner Moura, está a caminho da capital pernambucana para reencontrar seu filho. Estamos em 1977, a viagem de fusca é longa, o cansaço palpável. Marcelo não tem escolha a não ser seguir viagem, abastecendo em um posto de meio de estrada (não coincidentemente chamado São Luiz). O que deveria ser apenas uma parada rápida inicia esta trama rodeada por mistérios - pois, a alguns metros, apodrece sob o sol a pino um cadáver morto no domingo de Carnaval. Em seguida, policiais da Polícia Rodoviária chegam, mas se importam muito mais com Marcelo do que com este fato. Não satisfeitos, a corrupção dos oficiais é tamanha que até surrupiar os cigarros do protagonista eles o fazem. Para finalizar, um carro lotado de carnavalescos entra no posto, mas continua viagem - como se dissesse que o Carnaval passa, mas o saldo fica ali.
Kleber carrega a história com pulso firme de diretor - pois, se à primeira vista O Agente Secreto parece nos situar em um thriller lento que vai engatar a quinta marcha só lá para o final do segundo ato, assistindo novamente fica claro o quanto o cineasta tem controle da história que conta. Sua estrutura em três partes, que transita também em três núcleos (à lá O Som ao Redor, de 2012) e três momentos históricos, fica ainda melhor na segunda rodada. O impacto da primeira cena intensificou-se, inclusive: pois está tudo ali, gritando como um presságio. Neste sentido, Mendonça nos convida a segurar sua mão e sermos guiados por acontecimentos que parecem confusos no começo, mas que fazem sentido à medida que assistimos.
Isso se deve, entre muitos motivos, à direção de atores de um cineasta que foi premiado em Cannes e que sabe firmar parcerias boas com rostos recorrentes de sua filmografia. Dentre esses, destaca-se a carismática governanta Dona Sebastiana, interpretada com confiança por Tânia Maria (que também esteve em Bacurau, de 2019). Sua personagem abriga Marcelo e outros refugiados no Edifício Ofir. Apesar das situações que lhes fizeram se encontrar, as risadas gostosas que não se contêm do público quando Sebastiana aparece demonstram que, mesmo no meio de toda a “pirraça” que foi 1977, o bom humor também florescia em plena Ditadura Militar.
Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria
Logo, estamos falando de um filme de época; mas, como todo filme de Kleber Mendonça, O Agente Secreto é, antes de mais nada, um filme pernambucano. Neste sentido, para nos ambientar bem nesta história de mistério, o diretor “caça” em seu estado lendas urbanas locais para tratar sobre as formas que sua região lidou com a vida durante um regime totalitário. A famosa Perna Cabeluda (a qual vemos em ação durante uma sequência que me lembrou o videoclipe Thriller, de Michael Jackson) é um exemplo. Também, esse elemento fantástico não só trouxe uma ludicidade ao filme (que é o cerne da magia do cinema), mas também discute como a manipulação da verdade oficial durante a ditadura acontecia também pelo imaginário local. Uma das delícias do longa, inclusive, é saber dosar tão bem as tensões que ele constrói junto a esse respiro do fantástico (que, na verdade, é um elemento trágico).
Por conseguinte, se temos um protagonista pernambucano, o vilão é paulista: o sádico e criminoso Dr. Guirotti (interpretado por Luciano Chirolli) personifica um Sudeste cujo único objetivo é sabotar o Nordeste tanto quanto pode. É Guirotti e seu filho que vão colocar uns capangas (também parentes) para perseguir Marcelo. Para a sorte (ou azar) de Marcelo , ele começa a trabalhar ao lado de uma delegacia, cujo o delegado Dr. Euclides e seus filhos podem vir a ser sua única barreira de segurança contra os próximos acontecimentos.
Concomitantemente, temos uma história que divide sua atenção entre a presença feminina de personagens como Dona Sebastiana e múltiplos relacionamentos de parentesco masculino. Enquanto as mulheres parecem ser uma “mátria” no meio do caos da pátria maior, temos nestes homens uma tentativa de Kleber de fazer um comentário sobre relacionamentos entre pais e filhos. Mas o diretor também tem o cuidado de ser amoroso: em um mar de relações masculinas duras e brutais, aproveitamos a maré quando o protagonista está junto de seu filho Fernando. Esta relação delicada é a motivação por trás de toda ação - pois é por Fernando que Marcelo tenta fugir e sobreviver. No final, todo esse amor será a parte mais dura da história: de um filho que é a cara do pai, mas que vai acabar por não se recordar dele.
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O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025)
O Agente Secreto é uma obra sobre muitos assuntos. Não é meu objetivo esgotar todos os pontos, mas vale destacar, como disse Kleber em sua apresentação no Cine Brasília: “[achava que] estava fazendo um filme de época, mas então me dei conta que estava escrevendo sobre o Brasil contemporâneo”. Isso porque O Agente é um filme diferente sobre a ditadura brasileira. Sua dedicação em recriar Recife e Brasília de 1977 é palpável - com riqueza de detalhes pela arte, pelo clima e por uma trilha sonora eletrizante. Ainda assim, o diretor parece focar e entender que nossa história é composta por melodias complexas e rebuscadas, que vão desde o grave até o agudo - mas sem negar como a violência e a corrupção policial à época foram os grandes maestros do regime. Por isso mesmo, o filme reverbera tanto com os acontecimentos atuais: em uma semana que pela primeira vez no Brasil foram condenados generais por golpe de Estado e uma pesquisa desenvolvida por mais de 25 anos em universidade pública pode ter descoberto um tratamento inédito para paraplégicos e tetraplégicos, tais notícias parecem exemplificar como não havia timing melhor para essa estreia.
Ainda assim, mesmo tendo motivos para comemorar, perduram outros pontos a se olhar de maneira crítica para o nosso país e para nossa história, nos quais o filme toca sem ser didático: racismo, xenofobia, sabotagem à soberania nacional… Um filme sobre tudo isso reconhece que este “jeitinho brasileiro” - que tem medo de comunista, promove a lenda urbana de um país sem corrupção à época da ditadura, não reconhece nem o Holocausto e protege sempre a elite - é um fantasma que assombra essa pátria até hoje. E nossa capacidade de não só lembrar, mas também esquecer o nosso passado e a nossa história está intimamente ligada a quanto deixamos ou não esses retratos e motivos se perpetuar.
Retratos Fantasmas (Kleber Mendonça Filho, 2023)
Por fim, nada coincidentemente, O Agente Secreto também pousa em território nacional em três grandes cinemas de rua: o Teatro do Parque e o Cinema São Luiz foram palco da primeira exibição em Recife; já o grande Cine Brasília recepcionou o longa e a equipe na capital federal para dar o pontapé no Festival de Brasília. Quem viu Retratos Fantasmas (Kleber Mendonça Filho, 2023) vai notar que a pesquisa que fundamentou o documentário de Kleber foi essencial para a mais recente ficção do diretor. Até porque O Agente Secreto também é um filme sobre cinema - mais especificamente sobre cinemas de rua: esse espaço social, coletivo, público que nos instrumentaliza sobre nós mesmos, nossas identidades e histórias. Quando este espaço é sucateado e sua lembrança fica apenas no passado, todos nós perdemos muito - das memórias que preencheram esses lugares, especialmente. Sabendo e sentindo por isso, Kleber parece lamentar a perda do Cine Boa Vista, onde ele viu Tubarão (Steven Spielberg, 1975) nos anos 1970.
Essa perda não é mera coincidência. E que, no meio dessa festa, estejamos sempre prontos para nos afetar, lembrar e proteger as memórias desses lugares, tal qual daqueles que amamos. Pois sabemos muito bem o que o esquecimento delas pode acarretar.