Notas sobre a identidade (Marisa Arraes, 2025)
MÁQUINAS DESEJANTES
Escrito por Davi Pieri
Revisado por Angelo Pignaton
MÁQUINAS DESEJANTES
Escrito por Davi Pieri
Revisado por Angelo Pignaton
16 de setembro de 2025
“Toda máquina desejante produz conexões entre fluxos e intensidades: boca com seio, voz com afeto, corpo com corpo. Cada desejo é uma operação, uma articulação de forças que transforma o mundo e a si mesmo. O desejo não é uma carência; o desejo é sempre criativo, sempre produtivo. [...] Toda vida social e econômica é atravessada por máquinas desejantes, que podem ser capturadas pelo Estado, pela família ou pelo capital, mas que nunca deixam de produzir fluxos e devires.”
Deleuze & Guattari em O Anti-Édipo, 1972
Tendo frequentado, até o momento, todos os dias do 58º Festival de Brasília, quase todos os filmes que vi nas principais mostras (sobretudo a Competitiva Nacional) me geraram incômodos frequentes, nas escolhas de montagem truncadas, na decupagem incapaz de lidar com o espaço da cena, em atuações sofríveis e num geral por uma inabilidade para a escrita, seja no papel (roteiro) ou em tela (com a câmera). Parecia que eu não conseguia me desligar do fato de que estava presenciando tentativas repetidas de filme, e não filmes propriamente. A primeira vez que, honestamente, senti estar vendo um filme nesta edição do Festival foi ao assistir Notas sobre a identidade (2025), de Marisa Arraes.
Sinto que preciso ainda me debruçar mais sobre o que vem sendo a atual edição do FBCB, porque Notas sobre a identidade é um ponto fora da curva em diferentes sentidos. Sobretudo porque é uma obra que caminha na direção contrária do discurso predominante que as escolhas da curadoria do Festival permitem interpretar a partir dos filmes escolhidos. Este discurso é o da afirmação da identidade; a noção de identidade como elemento fixo e afirmativo da existência coletiva. Isso se reflete nos discursos de diferentes diretores, diretoras, roteiristas, atores e atrizes que subiram no palco. O objetivo, antes de falar dos filmes, é falar de forma categórica quem são e porque seus filmes têm relação direta e imutável com a própria imagem. Com isso, os próprios filmes ganham um status fixo de identidade indissociável do próprio realizador.
Vulgarmente, popularizou-se chamar este discurso de “identitarismo”, mesmo entre as esquerdas. Mas este é um debate natimorto que não vai ao cerne do problema. Enquanto os ditos críticos do chamado “identitarismo” apontam-no como uma espécie de desvio pós-moderno, é necessário compreender que a ideia de identidade é, antes de tudo, uma criação da chamada modernidade filosófica (seja Descartes, Hegel, ou o liberalismo iluminista) e que o dito “pós-modernismo”, em alguns de seus autores mais representativos, é o movimento que vai de encontro a essa ideia. Autores como Deleuze, Guattari ou Foucault buscaram a superação da identidade como categoria racional de violência sobre os sujeitos que captura e restringe o desejo e o devir, de modo a organizar o mundo e a sociedade em entes unitários e contínuos, fixando o que é fluido em hierarquias individualistas e atomizantes.
O que é importante compreender aqui é que, por mais que a afirmação dita “identitária” seja de identidades socialmente marginalizadas (indígenas, pessoas negras, LGBTQIA+, etc.) ainda se trata da manutenção de uma máquina de controle dos corpos, valendo-se, neste caso, dos corpos que são os únicos capazes de romper verdadeiramente com a instrumentalização a partir da negação dos estados fixos, pelo fato de que já têm sua identidade negada na sociedade capitalista, patriarcal e racista. São os corpos que podem realmente caminhar em direção a uma revolução de devires, desierarquizados em fluxos desejantes.
Após essa longa introdução, chego no ponto central que faz com que o filme de Marisa Arraes me leve a pensar tanto após a sessão, justamente por ter me permitido mergulhar durante sua exibição. Notas sobre a identidade trata-se justamente daquilo a que seu título remete: é um ensaio ficcional, com a mesma liberdade de um texto ensaístico que se permite a contradição, a reflexão fluida e pensamentos pontuais sobre uma ideia central. Uma das primeiras cenas do filme apresenta o funcionamento de Raquel, a partir da explicação de Maria para outros cientistas/investidores. Por um lado, esta cena adentra o universo sci-fi pelo qual a obra navega muito bem enquanto filme de gênero. Ao mesmo tempo, por ela também somos apresentados ao conceito-chave para compreender o desenrolar filosófico da narrativa: Raquel é um corpo sem órgãos. O conceito, que vem do filósofo e ator Antonin Artaud, é apropriado por Gilles Deleuze e Félix Guattari para falar de uma figura conceitual que designa um campo de intensidades, um plano de forças sem hierarquia pré-definida, onde o desejo pode se redistribuir; em oposição ao corpo organizado – com órgãos e identidade –, pensado enquanto prisão do devir. Apesar de, em Deleuze e Guattari, não se tratar de um corpo literal, Arraes transforma a ideia de corpo sem órgãos em palpável – como deve ser no cinema, onde o essencial está sempre visível aos olhos. Maria cria Raquel esperando dela uma função, isto é, impondo a ela uma identidade: ela deve ser a esposa falecida, desde o nascimento criada para servir.
A “função” da personagem Maria no filme de Arraes não é diferente das que exercem a família e o Estado burguês na coletividade: suas funções são a de formar as identidades fixas dos sujeitos de modo a torná-los funcionais dentro da máquina-Estado e da máquina capitalista. Mas, enquanto corpo sem órgãos, Raquel nasce pronta para o rompimento com o corpo organizado a ela imposto; corpo que literalmente não a pertence. Por isso soa estranho a revolta de Lia (Pâmela Germano) ao gritar que Raquel não é sua mãe, diante de Maria. Mas, com o avanço do filme, compreendemos que Lia não se revolta com a existência de um “robô” em sua vida, mas na imposição de que esta seja sua mãe; na imposição da identidade. Por falar em estranhamentos, as atuações de Tuanny e de Pâmela foram as únicas coisas que me tiraram do filme em momentos pontuais. Contudo, apenas as duas estão deslocadas do restante, outras atrizes como Lilia Tricarico e Bete Virgens carregam suas personagens com muita naturalidade. Entretanto, apenas Raquel e Lia, também, são corpos sem órgãos. Então, neste caso, as “más atuações” justificam-se: desde as quebras de ritmo até as reações fora do tom.
Isto porque (“spoilers” à frente para quem se importa) com o desenrolar da narrativa compreendemos que a presença de Lia é também maquínica e desejante para com Raquel. Ela desconstrói a necessidade de que aquele corpo sem órgãos seja a sua mãe, como esperado por Maria, para desejar em conexão direta e literal (em uma cena em que um cabo USB literalmente é conectado aos dois corpos). Mais uma vez, talvez o grande mérito de Arraes neste filme seja conseguir transformar conceitos em matéria palpável na tela; tornar cinematograficamente visíveis as ideias, e não deixá-las morrerem no campo da abstração. É o que faz aqui, visibilizando em tela o conceito deleuziano de máquinas desejantes, que compreende o desejo como produção de “conexões entre fluxos e intensidades: boca com seio, voz com afeto, corpo com corpo.” (O Anti-Édipo, 1972). Isso é ainda reforçado pelas experimentações visuais a partir da montagem com imagens de arquivo, animações e efeitos.
Raquel muda de nome, abandonando a antiga identidade que a reprimia, e fortalece seu devir desejante e maquínico com Lia. Esta, que até o momento não compreendíamos como robô, ou, melhor, mais do que “robô” (que categoriza ainda uma identidade fixa e ao mesmo tempo vaga), apresentou-se como um corpo sem órgãos, um ente que não precisa definir sua identidade - seja robô, humano, ou o que for. Lia quebra visualmente sua identificação com um corpo feminino a partir do jogo lúdico da festa junina (pela vestimenta e o bigode que desenha no próprio rosto). O plano final de Notas sobre a identidade é vago, mas indica um desligamento (literal ou simbólico) dos corpos de Lia e Raquel, que, após assumirem sua condição transitória e maquínica, têm suas cabeças uma sobre a outra, com os olhos abertos mas sem vida - talvez resultado da frustração de Maria, que pode tê-las desligado. Mas poderia ser também ato de qualquer outra instância mantenedora da identidade como instrumento de dominação que vê no devir uma ameaça iminente. O fato de que a cena final entrega pouco é parte da desconstrução elaborada no filme, em que agora pouco importa o que levou ao “desligamento” destes corpos - poderia ser Maria, ou qualquer dispositivo da burguesia; qualquer destas máquinas que ameaçam e desligam os corpos dissidentes e os pensamentos rizomáticos que, como em Deleuze/Guattari, conectam-se “a qualquer ponto”, sem “começo nem fim”, “raiz ou tronco”, negando a hierarquia e a linearidade.