Maré Viva Maré Morta (claudia daibert, 2025)
Corações do tamanho do mar
Escrito por Eduardo Tiago
Revisado por Gabriela de Mello
Corações do tamanho do mar
Escrito por Eduardo Tiago
Revisado por Gabriela de Mello
17 de setembro de 2025
A natureza certamente consegue exercer um forte poder estético sobre o humano. É fácil ficarmos maravilhados com um pôr do sol, com a luz da lua, em meio à escuridão da noite; com as grandiosas paisagens naturais, sejam elas oriundas da terra ou do mar. Neste filme, os lugares nos quais as protagonistas vivem causam essas sensações, muito por conta da solidão que lhes cerca e por elas terem contato direto com tal natureza. Isso não só é estético como também se torna afetivo ao longo do filme.
Maré viva maré morta (Claudia Daibert, 2025) conta a história de duas mulheres: Maria Bernadete, ou Berna, e Maurizélia Brito, ou Zélia. Elas vivem em diferentes áreas de conservação marinha: Berna vive no pequeno arquipélago de Abrolhos, localizado no sul da Bahia, e Zélia vive no Atol das Rocas, que fica a 267 km da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Ambas trabalham para o ICMBio, na preservação de seus respectivos territórios.
No início do filme, os dois lugares são retratados com um olhar turístico, com grandes planos gerais, uso de drones, foco nas paisagens da terra de Abrolhos e no mar do atol das rocas. As protagonistas falam sobre suas funções no trabalho; entramos nas suas residências; conhecemos melhor o espaço que as rodeia e, por isso, o longa assume a objetividade, expressa tanto na exímia habilidade do som em capturar o ambiente quanto no próprio estilo documental de observação e entrevista.
Porém, à medida que o filme avança, a natureza presente nos dois territórios começa a ganhar um teor afetivo e poético.
Para Berna, a ideia de viver em Abrolhos veio do seu marido, que insistiu e lhe convenceu a morar lá, mesmo tomada pelo medo do mar, por não saber nadar na época em que chegou. Eles dois conseguiram acostumar-se com a vida de lá, mas, num dia, em 1995, o marido decidiu mergulhar no recife de corais de lá e ela sentiu uma premonição de que algo ruim aconteceria com ele. O marido mergulhou e nunca mais subiu de volta. Desde então, Berna associa os pássaros e a vida em Abrolhos ao seu marido.
Para Zélia, viver num lugar onde não há água potável, banheiro, comida; em que a abundância de pássaros cantando atrapalha o sono das pessoas que trabalham lá; no qual o risco de morte por conta da colisão das ondas com as pedras é eminente; é sempre uma tarefa complicada. O filme mostra uma tartaruga grávida que, dias depois da gestação, morre em frente ao mar. Ela é enterrada por Zélia e sua equipe. No atol, ela sempre lida com espécies ameaçadas de extinção. Tais fatos exacerbam sua solidão e o trabalho de ser a guardiã de lá, independente da vida ou da morte.
Diante desse contexto, os grandes planos gerais, os drones, as gravações no mar e os planos dos pássaros deixam de exibir apenas os locais e passam a criar uma atmosfera emocional, por meio do sublime da natureza. O sublime é uma expressão de grandes e nobres paixões, como as expressas nas tragédias gregas, que colocam em jogo o sentimento; é a noção que pronuncia nossa sensação de pequenez diante do grandioso e do tremendo, que reforça as limitações do ser humano. A experiência do sublime envolve tanto o êxtase e a exaltação quanto o doloroso e o tremendo.
No caso de Maré viva maré morta, a imensidão do mar, pela infinitude do horizonte e da profundeza do oceano; a sensação de ser a única pessoa num lugar vazio, mas cheio de vida, de areia, de céu, de sol e, portanto, de vistas infinitas; quando relacionados ao passado das duas protagonistas, o tremendo e a grandiosidade ganham um caráter catártico. O espectador assiste ao filme e paralisa-se com a impossibilidade de não fazer nada, além de chorar junto das personagens. As imagens, agora, são o pôr do sol, a noite; volta-se ao mar, ao horizonte e ao jogo de claro e escuro, com a silhueta dos pássaros. As histórias de Zélia e Berna tornam-se grandiosas diante do tremendo da natureza.