Maré Viva Maré Morta (claudia daibert, 2025)
A maré da vida
Escrito por Brisa Praiano
Revisado por Gabriela de Mello
A maré da vida
Escrito por Brisa Praiano
Revisado por Gabriela de Mello
17 de setembro de 2025
Maré Viva Maré Morta (2025) é o primeiro filme dirigido por Cláudia Daibert, que atua há mais de 20 anos no ramo do cinema. Esse longa revela as histórias de vida de Maria Bernadete Barbosa “Berna”, residente do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, e de Maurizélia Brito “Zelinha”, protetora da Reserva Biológica Atol das Rocas. Apesar de ter sido gravado, majoritariamente, em espaços de preservação, esse documentário não pode ser considerado ambientalista, já que a narrativa se concentra nas trajetórias pessoais das duas protagonistas, explorando mais a relação delas com os espaços do que debates acerca da conservação ambiental.
Diferentes modos de se construir um documentário foram utilizados nesse longa. O modo poético é perceptível pelo uso das imagens e sons, que não possuem o objetivo de informar, e sim evocar experiências sensoriais. Já o modo participativo, apesar de não vermos nem escutarmos a diretora no filme, é presente durante os depoimentos. A forma fluida e espontânea dos relatos é diretamente interligada ao ambiente de escuta e acolhimento construído entre a equipe e as personagens.
Fonte: Material de divulgação disponibilizado para o 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
A partir das imagens captadas pela diretora de fotografia Dani Azul e suas sequências organizadas pelo montador Sérgio Azevedo, o filme estabelece um contraste harmônico entre o macro e o micro. Os planos abertos transmitem a imensidão da natureza e sua força diante dos seres humanos. Já os planos fechados, muitas vezes evidenciando olhares, gestos e detalhes das personagens principais, trazem o contraponto social em relação ao natural. Assim, exaltando essa disparidade de escala, Maré viva maré morta promove uma reflexão acerca da força humana, pois apesar de sermos pequenos e fracos em relação à grandiosidade da natureza, carregamos muita potência dentro de nós, alimentada de memórias, emoções e desejos.
Fonte: Material disponibilizado para divulgação no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
A utilização dos voice-overs das entrevistas por cima das imagens tem seus altos e baixos. É interessante perceber que as falas, em algumas ocasiões, são divergentes do que nos é mostrado visualmente. Um exemplo disso é quando Berna fala sobre seus primeiros momentos em Abrolhos: ela não gostava da ideia de viver lá. Enquanto essa fala acontece, vemos a personagem muito focada em seu serviço, utilizando seu binóculo para visualizar algo distante.
Fonte: Material disponibilizado para divulgação no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Em outros momentos, a narração ficou em segundo plano, uma vez que as fortes imagens subaquáticas prenderam toda a minha atenção. Isso pode estar relacionado a minha própria incapacidade de ouvir e ver com a mesma intensidade, mas acredito que alguns registros são poderosos demais para dividirem espaço com os relatos falados. Independente disso, o longa possui vários momentos de respiro, em que somente a natureza e seus sons têm lugar, dando-nos tempo para assimilar o que ocorreu anteriormente.
Imagem retirada do Trailer de Maré Viva Maré Morta (Cláudia Daibert, 2025)
O prêmio de melhor edição de som do 27º Troféu Câmara Legislativa foi concedido para esse longa, visto o complexo tratamento sonoro que Olívia Hernández fez nesse filme. Essa obra audiovisual foi capaz de despertar sensações sinestésicas durante a exibição, ao ponto de eu conseguir sentir a textura da água só pelos sons e imagens. Isso só foi possível pelo trabalho panorâmico da mixagem, no qual os sons são direcionados para a esquerda, direita ou centro, proporcionando uma sensação de imersão nas paisagens.
Dessa forma, a diretora Cláudia Daibert construiu uma obra muito sensível, na qual os elementos visuais e sonoros trabalham juntos, aumentando as emoções geradas pelos relatos das personagens. Entre perdas e recomeços, Berna e Zelinha possuem trajetórias de vida similares à maré, que ora é viva - agitada - ora é morta - calma. Só vendo o filme para entender a potência dessas mulheres.