Dança dos Vagalumes (Maikon Nery, 2025)
O brilho da criança
Escrito por Brisa Praiano
Revisado por Giovanna Celestino
O brilho da criança
Escrito por Brisa Praiano
Revisado por Giovanna Celestino
15 de setembro de 2025
Dança dos Vagalumes (Maikon Nery, 2025) é inseparável de seu contexto político e social. Esse curta-metragem foi integralmente gravado no assentamento Eli Vive, pertencente ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Paraná. A escolha por uma locação em uma comunidade rural não é em vão, uma vez que esse filme retrata o dia-a-dia de um território repleto de luta e resistência. Infelizmente, essa é a realidade vivida pela maior parte dos assentamentos do MST no Brasil.
Créditos: Brisa Praiano
Ao ter esse contexto em vista, o enredo da obra pode ser melhor compreendido e analisado. Na narrativa, a representação do cotidiano da comunidade busca fugir dos estigmas frequentemente associados ao MST, como a falta de infraestrutura, a vandalização e os conflitos violentos. Isso não quer dizer que estes elementos não estejam presentes na obra. Como é visto no passado, a moradia de Joana (Amanda Abrantes) era precária, possuindo lonas como paredes e somente um cômodo. A morte de seu pai em sua residência também é uma das denúncias mais fortes do filme: a violência externa que invade os assentamentos rurais.
De dentro de seu lar, o pai de Joana olha para o horizonte.
Fonte: Material de divulgação do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Ao dizer que esse curta foge dos estigmas, pondero os momentos tensos e felizes da narrativa, que, ao meu ver, resultam em uma abordagem esperançosa. A exaltação da vivência das crianças é feita de forma poética. A união delas em diversos momentos, correndo pelos espaços com suas lanternas, unidas e alegres nos lugares que ocupam. A força dessa unidade adquire forma no canto à capela do hino do MST — extraído do filme Classe Roceira (Berenice Mendes, 1985) — cantado por crianças residentes do assentamento. “As crianças são o futuro” é uma ideia recorrente, mas quando inserida no contexto do MST, ela adquire uma maior relevância, visto que, desde cedo, a juventude já está inserida na luta pela justiça social no campo.
Alunos da Escola Municipal do Campo Trabalho e Saber, localizada no assentamento Eli Vive, no distrito de Lerroville, em Londrina (Paraná).
Fonte: Material de divulgação do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Quando criança, Joana não olha para o horizonte como seu pai. Ela busca observá-lo de uma nova forma, tampando um olho de cada vez ao encarar o vasto espaço à sua frente. Seu olhar não é rápido e disperso. Os planos longos e contemplativos enfatizam esses momentos de observação. E a partir de seu olhar único à realidade, a criança se torna um símbolo de fé e transformação.
A caminhada noturna de várias crianças com suas lanternas na caça por vagalumes, e a frequentemente aparição de luzes, são uma analogia visual, simbolizando a importância da juventude nos caminhos futuros da comunidade.
Still das gravações de Dança dos Vagalumes (Maikon Nery, 2025)
Fonte: Material de divulgação do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Por fim, quanto aos vagalumes, eles provavelmente ainda irão encontrar muita escuridão por aí. Felizmente, quanto mais escuro, maior o brilho da esperança!