corpo da paz (Torquato Joel, 2025)
Guerra Fria em corpos Brasileiros
Escrito por Samuel Kauã
Revisado por Davi Pieri
Guerra Fria em corpos Brasileiros
Escrito por Samuel Kauã
Revisado por Davi Pieri
16 de setembro de 2025
“Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades”
O tempo não para (Cazuza, 1988)
Na quarta noite da mostra competitiva nacional de longas-metragens, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi convidado a uma verdadeira viagem no tempo. O sertão paraibano, no auge da ditadura militar, constitui-se como pano de fundo em Corpo da Paz, de Torquato Joel, que apresenta Teobaldo, criança em fase de descobrimento, seu irmão Lavor, estudante universitário e Greg, um pesquisador norte-americano.
Nessa história, a câmera muito retrata o sutil. Com sua coloração sépia e entre planos fixos e close-ups, a linguagem de Corpo da paz mostra que não falta riqueza em sua abordagem. A coloração tem um momento único durante o filme todo, em que foge do filtro que predomina do início ao fim; esse momento específico dá uma pista direta sobre a narrativa do personagem Teobaldo.
Os planos fixos repletos de interações fora de campo provocam o espectador ao exercício de preencher o que não é visto, com imaginação, como na cena da chegada de Lavor, onde temos o plano no quarto de Teobaldo, mas conseguimos quase que visualizar o que não é mostrado pela câmera, no caso, o seu retorno a casa. Os close-ups exibem a dramaticidade e sinceridade de cada personagem, principalmente os mais velhos, que provavelmente pela época e contexto político, acabavam por se conter mais (mesmo que essa contenção também seja significativa) com a câmera indo diretamente a sua fonte de expressão, a face. A cena que melhor representa essa utilização do close-up é a do confessionário, em que a personagem tem o rosto ocultado pelas grades e, com o passar das confissões, a câmera vai avançando em seu rosto, captando as expressões. Essa se destaca também pelo aprofundamento na historicidade, abordando a teologia da libertação.
A linguagem do filme ajuda a entender as verdadeiras intenções dos personagens, como os sons que cercam Greg, o pesquisador. Na cena onde ele bate duas pedrinhas, o som se camufla como um intruso, imitando muito bem o som da natureza ao seu redor; a câmera o coloca defronte com a serra, com se estivesse em confronto com o próprio lugar.
Outras técnicas cinematográficas são percebidas ao retratar Gentil, que é um personagem carismático, mas que poderia, junto aos pais do protagonista, personificar a própria síndrome do vira-lata. É interessante ver como as ferramentas audiovisuais mostram isso. Isso é visto quando Gentil se compara a uma personalidade norte-americana em uma revista, que cobre seu rosto com uma sombra, representando o apagamento de sua identidade; ou quando a montagem das imagens apresenta o laboratório cheio de cientistas simbolizando a riqueza intelectual nacional em contradição com Gentil se inferiorizando perante Greg, só por ele ser do exterior.
A cena final, onde Teobaldo faz uma armadilha ao pesquisador, remete a Bacurau (Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, 2019) porque é como se fosse uma resposta a tudo que Greg representa, a manutenção da hegemonia americana.
Bacurau (2019)
Ao final, o olhar de Teobaldo perante seu sucesso com a armadilha ultrapassa a representação só do seu personagem e acaba por representar uma ideia, por corporificar a Guerra Fria. A proposta do longa foi ousada, pois ir desde a unicidade da fase de crescimento até apresentar uma espécie de ‘‘guerra silenciosa’’ poderia dar errado, mas certamente não foi o que aconteceu. Torquato Joel enfatiza a visão do corpo como um território sagrado e que tem de se manter soberano.