corpo da paz (Torquato Joel, 2025)
Da poesia paraibana para o mundo
Escrito por Raquel Thayse
Revisado por Letícia Negreiros
Da poesia paraibana para o mundo
Escrito por Raquel Thayse
Revisado por Letícia Negreiros
16 de setembro de 2025
O novo longa de Torquato Joel, Corpo da Paz, retrata o sertão paraibano na década de 60 em plena ditadura militar. Acompanhamos os olhares de vários personagens, mas, a visão em foco, trabalho e provocação é a do espectador. Todo o enredo elabora a dicotomia entre o pacato da vida interiorana e a repressão violenta e escondida da ditadura e nós, espectadores, somos os grandes voyeuristas ativos deste enredo. É a nossa perspectiva, que atravessa a de todos, que compreende e desenvolve essa história.
Enquanto público, temos acesso aos desejos e curiosidades do menino Teobaldo (Giovanni Sousa); à mãe (Fabíola Morais) e ao pai (Buda Lira) em histeria anticomunista; ao filho mais velho, Lavôr (Rafael Guedes), enquanto estudante e militante da resistência contra a ditadura; a Greg (Vinicius Guedes), o estrangeiro, que vem como colonizador, vigiar ameaças comunistas, explorar e sabotar as terras e tecnologias do sertão da Paraíba. Entretanto, só conseguimos entender os objetivos de Torquato neste filme, que apresenta uma narrativa lenta em seus planos longos, escondida nos seus subtextos e poética em sua fotografia de muito contraste e cor sépia, a partir do momento em que nos vemos como espectadores participantes. Aos poucos vamos espiando e descobrindo do que se trata o contexto de cada personagem e, assim, da história.
A provocação do filme já começa em seu nome, que faz alusão direta à agência federal estadunidense criada por John Kennedy na década de 60, Peace Corps. Em teoria, seria uma agência voluntária para ajudar países em desenvolvimento, mas, na realidade, era usada para procurar e combater “ameaças comunistas” e buscar por interesses dos Estados Unidos nestes países, tendo uma parceria com o regime militar do Brasil.
Assim, o diretor nos convida a perceber a verdadeira intenção deste norte-americano nestas terras, como também a histeria anticomunista – no filme simbolizada através do medo dos pais de Lavôr e Teobaldo. Criada com sensacionalismo, culpa a resistência, “os comunistas”, pela morte e desaparecimento dos filhos daquela região, na qual antes viviam suas vidas pacatas, e agora começaram a desaparecer e morrer. Assim, conseguimos entender a ligação do americano com os militares brasileiros. Da mesma forma que o americano, Greg, repreende as curiosidades e brincadeiras de Teobaldo, os militares brasileiros repreendem e torturam seu irmão, Lavôr.
Fica clara a poesia dentro da linguagem audiovisual de Torquato. Por mais que o assunto retratado seja sério e violento, ele escolhe uma linguagem sossegada, tal qual as cidades de interior, para provocar o nosso olhar sobre as violências e explorações da ditadura. Sua escolha por planos longos, por iniciar cenas em planos detalhes, a falta de tantos diálogos e uma presença maior do design de som, constroem esta poesia presente na direção, da mesma forma que demonstra a beleza da pacatez da região. Uma cena muito bonita, de exemplo dessa poesia dicotômica da linguagem do diretor, começa com um longo plano das mãos de Teobaldo segurando bolinhas de gude contra o sol. Um plano contemplativo com um lindo jogo de luz e sombra dentro da tonalidade sépia e, em seguida, o americano chega e repreende Teobaldo, chutando suas bolinhas, ou seja, a serenidade, calma e beleza desse plano versus a repressão e exploração do norte-americano.
A narrativa poética na junção da imagem e do som da direção de Torquato Joel é presente em vários de seus curtas como Passadouro (1999) e Transubstancial (2003), que também apresentam uma fotografia de muita luz e sombra, movimento lento de câmera resultando em imagens contemplativas, junto de uma montagem demorada em seus planos, dando o foco para essa contemplação. Isso também é evidente no longa que aqui analisamos - mesmo em cenas de tortura militar, vemos as imagens e depois refletimos sobre o que elas são.
A narrativa construída é dicotômica, pacata e misteriosa, violenta, e poética. Sem dúvidas, Corpo da paz constrói um novo olhar e nova forma de narrar a ditadura militar brasileira, trazendo o foco para o oculto, para o sertão e fugindo do óbvio das violências explícitas ou músicas revolucionárias, situadas nas grandes cidades de concreto, mas que tem a mesma seriedade e importância. Precisamos falar mais de Torquato Joel, sua poesia audiovisual e o cinema paraibano.