Seguindo rapidamente adiante, temos o filme que vai infelizmente tipificar a sessão e por em incógnita qual é o pensamento da curadoria da Mostra Brasília. Rocha: substantivo feminino (Larissa Corino e Patrícia Meschick, 2025), filme que mostra um coletivo feminino de escalada, suas percepções sobre a atividade e suas relações enquanto mulheres. Sua decisão mais bem feita é a de anunciar o filme com um plano em que duas moças conversam, enquanto a câmera dá um zoom entre elas e logo retrocede, retornando ao quadro inicial. Podemos enxergar aqui a profetização do filme, ou melhor: a vontade de um filme. Trata-se, sim, da documentação e, nesse sentido, da representação como valor máximo. Tanto de preencher o filme com a escalada e entrevistas, como ao se valer de todo um discurso de fato importante: a disputa de um espaço; sem, no entanto, qualquer maleabilidade com traços realmente significativos de pensamento cinematográfico. O discurso é dado e a forma é acessória, portanto, o que vemos tende mais a um vídeo institucional e, nesse sentido, à promoção de uma identidade. A sua afirmação, ainda que importante, se reveste de noções condescendentes que vêm expressas em palavras comuns nos debates de cinema como: “urgência”, “necessário”, etc. Trata-se de um discurso que, ao mesmo tempo em que denuncia questões atuais do mundo, e que quer operar uma crítica, o faz numa esperança de que o cinema as remedie. Não à toa se ouve falar no “cinema que quer dar conta do mundo”, este é um desses. Como ele há outros milhares de filmes de causas muito importantes, mas mesmo que se pense no cinema como essa coisa (frequentemente) complacente, instrumento de mudança social, é assim que se dará, de fato, uma mobilização paradigmática quanto às tipificações de gênero e os espaços em que as mulheres deveriam ter o direito de permear sem opressão? Como falei, há vários outros como esse nos festivais todos os anos pelo Brasil. Foram os debates ao redor deles também que transformaram em caricatura o filme do “desejo”, dos “afetos”. Não me entenda mal. Me refiro às afirmações genéricas, sem verdadeiro diálogo com a obra e suas particularidades, que a valorizam como importante a partir da repetição de tais palavras. Todo filme dito “importante” acaba sendo também um filme de “desejo” e de “afetos” neste discurso. Enfim, pense na história do cinema, pense nos exemplos marcantes do cinema político e onde filmes, como este da Mostra Brasília, valorizados por sua dita importância, se inserem na relevância da história. Eles são o tensionamento ou são o padrão? Conforme a célebre frase de Godard, a regra ou a exceção? No seu elogio a Hitchcock como o grande criador de formas do século XX, o francês também resume tudo o que falei: “[...] e são as formas que nos dizem, afinal, o que há no fundo das coisas.”