Boi de Salto (Tássia Araújo, 2025)
Identidade é resistência
Escrito por Neurilan Lima
Revisado por Riccardo Walmir
Identidade é resistência
Escrito por Neurilan Lima
Revisado por Riccardo Walmir
16 de setembro de 2025
Boi de Salto (Tássia Araújo, 2025)
O 4° dia da Mostra Competitiva Nacional do 58° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro exalta a produção audiovisual nordestina e o protagonismo LGBTQIAPN+. Boi de Salto (Tássia Araújo, 2025) foi o curta-metragem selecionado para abrir a sessão. O ponto de partida do enredo é a fuga de um casal da fazenda de seu patrão, no interior do Piauí, depois de matar um dos bois mais caros da fazenda em prol da realização de um desejo da esposa grávida: ela queria comer língua de boi.
Abdias (Mikael Costa), filho dessa gestação, cresce e entra em um grupo tradicional de Bumba-Meu-Boi. Seu sonho é poder performar de salto alto nas festas e vaquejadas da cidade, mas assim que tenta é repreendido e impedido de fazer parte da dança. Abdias decide criar a própria tradição para dançar de salto, como manifestação de sua identidade em meio a uma das festas mais tradicionais do Nordeste.
Tássia traz cuidadosamente às telas a individualidade cultural em meio à crença mística do “desejo de grávida” que, caso não realizado, resulta na ideia de que o bebê nascerá com a cara do alimento desejado. Embora a direção de arte nos revele um contexto de crença cristã católica - através de artefatos e figuras de santos na casa - é evidente a forte presença do sincretismo cultural nordestino ao referenciar um folclore que carrega heranças africanas do período escravocrata. É como se a língua do boi morto que a mãe de Abdias tanto desejava nutrisse uma conexão espiritual entre o protagonista e a festa do Bumba-Meu-Boi.
Vale destacar também a maneira que a jornada de Abdias é desenvolvida através da estética do filme. As primeiras cenas do protagonista ensaiando para os folguedos conta com uma paleta ligada à festa tradicional do boi, com figurinos e indumentárias com branco sendo a cor predominante. Enquanto descobrimos mais sobre Abdias e sua identidade, cores mais quentes entram em cena, até a sequência final onde o curta adota uma estética mais vibrante e colorida. É o símbolo da individualidade do protagonista e da reivindicação de um espaço tradicional.
O cinema piauiense entra nas telas do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro pela terceira vez. O estado estreou no FBCB em sua 45ª edição com o longa-metragem documental Kátia (Karla Holanda, 2012), que mostra vinte dias ao lado de Kátia Tapety - a primeira travesti eleita para um cargo político no Brasil.
Kátia (Karla Holanda, 2012)
Trazer a vivência LGBTQIAPN+ piauiense às telas representa resistência, diante da escassez de incentivo à produção audiovisual no estado do Piauí, e dar abertura à representatividade é estimular a preservação da memória e do afeto dessa comunidade.
Boi de Salto (Tássia Araújo, 2025)
O fim do curta, com Abdias performando de salto alto com a mescla de ritmos de Bumba-Meu-Boi e da cultura Ballroom, é a maneira que Tássia Araújo encontra para amplificar a força queer piauiense, unindo a tradição e o misticismo marcante em uma cultura que merece ser ouvida, apropriando-se do Vogue como manifestação contemporânea de identidade. A performance do protagonista Mikael Costa, gravada no Boibódromo do bairro Poti Velho, em Teresina, espaço cultural vítima do descaso estatal, encerra o filme com uma reflexão sobre o poder que o cinema tem de representar a cultura de um estado. Dar espaço a essas narrativas é o que nos dá esperança para um potencial cinema nacional cada vez mais diverso.