atravessa minha carne (Marcela Borela, 2025)
A dança como cerne da imagem em movimento
Escrito por Gabriela de Mello
Revisado por Rafael Ramagem
A dança como cerne da imagem em movimento
Escrito por Gabriela de Mello
Revisado por Rafael Ramagem
17 de setembro de 2025
Um filme de dança. É o que nos propõe a diretora Marcela Borela desde o início. Um filme - isto é, uma obra audiovisual - que registra imagens em movimento de dança - ou seja, de corpos que se movimentam. É nítida a relação que se estabelece no longa entre essas duas expressões artísticas. Por meio da associação que existe entre a carreira da cineasta e sua antiga prática como dançarina, aqui, a memória de Marcela se conecta à memória do próprio cinema ao longo da obra. Com isso, o vislumbre desse elo cinema-dança viaja dentro e além do próprio filme sob uma premissa: a coreografia habita um espaço central na sétima arte.
Logo nas imagens de arquivo apresentadas no início, dos filmes pioneiros, podemos perceber uma das expressões primárias dessa relação. Um domador movimenta, com a mão e o braço, uma vara em frente a dois tigres, que correm de um lado para o outro da jaula. Na dança serpentina de Loie Fuller, as dançarinas sacodem seus vestidos esvoaçantes, que traçam formas hipnotizantes na tela. Ali, criava-se o cerne da imagem em movimento, essencialmente hipnótico, a partir da dança. Ou seja, a base do cinema são essas imagens - de corpos e de coisas - que dançam na tela.
Igualmente hipnotizante - mas muito mais corporal - é a filmagem documental do processo criativo da Qasar Cia de Dança em Atravessa minha carne; que é onde reside a maior força do longa. Aqui, os corpos são de carne, eles se contorcem, esticam, dobram. O que entendemos como coreografia passa a ser o contato dessas peles e músculos, os gestos, o trabalho e os seus esforços.
Pensando nessa corporalidade, tantas são as associações possíveis que podem surgir com outras obras audiovisuais. Marcela citou, no debate, o documentarista Frederick Wiseman, em especial seu trabalho em Crazy horse (2011). O documentário nos leva a conhecer um dos mais célebres cabarés de Paris, que tem o striptease mais chic do mundo. O filme também transita, assim como o de Borela, além das apresentações de dança: pelos ensaios, preparações, provas de figurino e maquiagem dos dançarinos.
Em paralelo a isso, o sensualismo e o erotismo são também bastante intensos no longa da cineasta - para além do sexo. Uma associação imediata que pode surgir, nas cenas de embate corporal entre os dançarinos em Atravessa minha carne, é com Anatomia do inferno (2004) da cineasta Catherine Breillat. O filme de Breillat é muito sobre sexo, mas sobretudo, sobre a relação entre “masculino e feminino” (sob uma ótica cisgênero). Ao longo de todo o filme, somos expostos a esses dois corpos que se relacionam e se fundem, revelando o que isso diz sobre o vínculo existente entre eles. Isso só é possível por meio das imagens postas desses corpos se tocando e se movendo, numa coreografia incessante de encaixes e desencaixes. Ocorre algo similar no longa de Borela, nos encontros entre os diferentes corpos dos dançarinos da Qasar.
Em meio ao transe corpóreo e imagético de Atravessa minha carne, Marcela Borela faz um exercício metalinguístico, formulando em que consiste a relação entre a dança e o cinema por meio de suas próprias linguagens - gestos, movimentos, encenação - e da relação intrínseca existente entre elas.