Assalto à Brasileira (José Eduardo Belmonte, 2025
À Beira do Absurdo
Escrito por Maria Luiza Mesquita
Revisado por Letícia Negreiros
À Beira do Absurdo
Escrito por Maria Luiza Mesquita
Revisado por Letícia Negreiros
18 de setembro de 2025
10 de dezembro de 1987 é a data do acontecimento do maior assalto a banco que marcou o país e serviu como fonte de inspiração para a realização do novo filme de José Eduardo Belmonte. Esse período da história corresponde à fase mais turbulenta da crise econômica do país nos anos 1980. Preços altos, desemprego em massa e uma inflação fora de controle eram os principais motivos que marcavam o grande descontentamento da população, o aumento da desigualdade social e vários outros sufocos. Assalto à Brasileira vai adaptar para as telas de cinema como sete assaltantes atrapalhados e um jornalista desempregado, que se torna herói, fizeram história ao protagonizar tal evento.
O filme mistura comédia e ação na forma de retratar o episódio. O despreparo dos assaltantes e a interação pacífica e permissiva com os reféns intensificam ainda mais o tom cômico. O cenário de assalto, com homens armados e pessoas rendidas, são fatores que poderiam servir perfeitamente como contexto para causar tensão na plateia que assiste, mas com o roteiro escrito por LG Bayão, que é carregado de humor e sarcasmo, o efeito gerado foi uma onda de diversas risadas ouvidas durante toda a sessão.
A construção dessa atmosfera bem-humorada foi causada também pelas diversas atuações memoráveis, incluindo nomes como Matheus Macena, Christian Malheiros, Hugo Possolo e Murilo Benício. Durante as cenas tensas e de descontração, os atores colocam em jogo o uso de expressões faciais e gestos exagerados, dando vida a essa característica hilária e sarcástica dos personagens. Os assaltantes contrariam estereótipos ao apresentar atitudes respeitosas e simpáticas com os reféns, transmitindo confiança tanto para eles como para quem assistia.
Ainda assim, esse tom irônico e engraçado consegue abrir espaço para a reflexão de outros temas sérios e importantes. O que leva sete homens a roubar um banco sem planos e sem preparo? Desespero? Necessidade? As falas “Isso não é um assalto, não somos bandidos”, e “Isso aqui é uma revolução”, ditas por Moreno (Christian Malheiros) evidenciam ainda mais todo esse contexto de dificuldades que a população lidava na época. Essas falas surgem como um efeito de crítica por trás da motivação que levou esses criminosos a cometerem tal ato ilegal, as adversidades que vieram junto com a crise econômica, que resultou no desespero em ferir a própria dignidade em busca de realizar sonhos e vontades.
Assalto à Brasileira serve como um palco para a apresentação de um retrato crítico e irônico de uma época em que a crise econômica e o desespero da população moldavam a vida cotidiana. Ao transformar um episódio trágico, como o assalto ao banco, em comédia, o longa permite que possamos acompanhar de forma mais leve o absurdo que uma vez já marcou a realidade brasileira, e até torcer pelos assaltantes carismáticos. Afinal, naquele contexto o verdadeiro crime era a pobreza que empurrava a sociedade inteira à beira do absurdo.