Assalto à Brasileira (José Eduardo Belmonte, 2025
O vacilante retrato de um país em crise
Escrito por Cindy Abrantes e Fillipe Medeiros
Revisado por Paula Hong
O vacilante retrato de um país em crise
Escrito por Cindy Abrantes e Fillipe Medeiros
Revisado por Paula Hong
18 de setembro de 2025
O imaginário brasileiro abarca uma infinidade de histórias, muitas delas inacreditáveis, que já conquistaram ares de clássicos jornalísticos. Crimes viram crônicas que revelam muito do país em sua essência. Não é que o Brasil se resume à violência, mas esses episódios têm muito a dizer sobre as nossas contradições, sobre as tensões que atravessam a nossa sociedade. Assalto à Brasileira (José Eduardo Belmonte, 2025) parte de acontecimentos reais tendo como pano de fundo a crise econômica brasileira no final dos anos 1980, a qual gerou descontentamento generalizado com a classe política. A própria direção de arte trabalha muito bem para integrar o espectador nesta realidade de um tempo já passado, através de trechos de reportagens antigas, roupas e carros da época, máquinas de escrita e o cruzado, moeda já extinta, além de toda a dinâmica de ir ao banco com uma folha em mãos para conseguir receber um pagamento.
Em Assalto à Brasileira, Paulo (Murilo Benício) é a figura principal do filme: um jornalista que, contra sua vontade, acaba sendo demitido. Acompanhamos o enredo a partir de sua perspectiva, entendendo quem ele é e no que ele acredita. Paulo manipula o assalto, com até mais controle que os próprios criminosos. Essa interferência adiciona camadas no personagem, que parece estar conduzindo os fatos para que ele tenha o melhor furo de reportagem já visto. Ao mesmo tempo, Paulo mantém os reféns a salvo com sua lábia extraordinária. A zona cinza de seu caráter é interessante, colocando em xeque a figura de herói que é rapidamente atribuída a ele.
Como já se podia esperar, críticas sociais foram trabalhadas no enredo, afinal o cinema brasileiro sempre foi bastante político, usado como forma de revolução e denúncia, mas no caso de Assalto à Brasileira, toda essa crítica se finca no raso: os demais personagens acabam recebendo tratamentos superficiais, sendo reduzidos a meros alívios cômicos. Os assaltantes têm personalidades simplórias, não sabemos quem eles são de fato, quais são suas motivações para roubarem o banco. O mesmo ocorre com os policiais, que não são bem desenvolvidos para criarmos revolta e repulsa por eles. Os bandidos, que são os mais próximos de protagonistas depois de Paulo, não nos comovem para criarmos laços afetivos e comprarmos seus lados na história.
Ouvimos apenas Moreno (Christian Malheiros) representando o grupo, enfatizando que aquilo não se trata de um assalto, mas de justiça feita pelo cidadão comum — e em prol dele. Porém, ao falar do governo, o inimigo se torna amplo, desconhecido e não específico. O que o governo teria feito a eles? O que fez contra a sociedade para que ela volte contra si tão facilmente? O sentimento é de que a crise, que o país enfrenta e toda a ditadura vivida alguns anos antes, é apenas um pano de fundo mal trabalhado, pois aqueles que não leram a sinopse ou não conhecem muito a história do Brasil não têm a compreensão de que o povo brasileiro enfrentava sérios problemas econômicos.
O longa-metragem começa mostrando as diferenças entre essas duas realidades: do jornalismo e do crime. Elas se entrelaçam em um único plano, onde vemos os meliantes dentro de um táxi roubado e Paulo passando por eles para entrar no banco, que também será assaltado logo mais. Nenhum deles se vê ainda, mas entendemos que os dois mundos se colidirão. A partir do momento que suas vidas se chocam, Paulo passa a ser o mentor deles, conduzindo-os no que ficou conhecido como maior assalto a banco do país.
Para efeito de comparação de filmes de assalto, o clássico dos anos 70, Um Dia de Cão (Sidney Lumet, 1975), compreende melhor seus protagonistas. Ao contrário do que José Eduardo Belmonte faz em Assalto à Brasileira, Lumet investe nas motivações dos criminosos, pelo menos naquele que simboliza os temas do filme: o inexperiente e nervoso Sonny Wortzik (Al Pacino). Há momentos cômicos aqui, mas eles não anulam o drama motivador principal. Wortzik precisa de dinheiro para pagar pela cirurgia de transição de gênero de seu namorado. Em um dos momentos mais emocionantes do longa, eles conversam ao telefone e externalizam seus medos e intenções. Somos convidados a nos identificarmos com Sonny, entendendo o como e o porquê de sua decisão de invadir o banco. Assalto à Brasileira volta os holofotes para o jornalista Paulo, limitando a visão do público e oferecendo apenas um lado para nos apoiarmos. Por mais que seja baseado em uma história real, Belmonte e o roteirista L.G. Bayão optaram por representar os assaltantes de maneira jocosa. Essa escolha pode ser perigosa, pois reforça estereótipos criados em relação às pessoas negras sobre serem perigosas e inferiores, dependendo de um “salvador branco” para resolver seus problemas.
Diferente de Sonny, em Um Dia de Cão (Sidney Lumet, 1975), os personagens de Assalto à Brasileira nos mostram homens sem um plano e objetivo, apenas com a ambição pelo dinheiro, que nem sequer sabem o quanto querem e sem pensamentos de para onde irão depois. Moreno cita, mais ao final, que um dos ladrões tem o sonho da casa própria, mas até isso parece raso, já que não o conhecemos a fundo. Se soubéssemos um pouco de sua história de vida, como se já morou na rua ou passou dificuldades com a família, com a mãe, etc. Apenas um pouco mais de informação já nos provocaria mais conexão com eles.
Quando Assalto à Brasileira insere um político na trama, materializando o descaso do Governo com os pobres, o faz em poucas linhas de diálogo, carecendo de momentos verdadeiros de embate. Impera aqui uma espécie de neutralidade que não direciona a narrativa, como se atirasse para todos os lados. O governador (Augusto Madeira) tem um lampejo de comentário ácido em um diálogo com Fonseca (Paulo Miklos), o sargento da polícia. No impasse da libertação dos reféns, ele condiciona a resolução em uma ordem a Fonseca: “Três C's pra eles: cadeia, cadeira de roda ou caixão”, mas o filme parece mais interessado em retratar os assaltantes como a turma do Didi do que em inserir substância nas discussões que levanta.
Na questão da representação das mulheres, o filme peca em vários sentidos, limitando as poucas personagens femininas a interesses amorosos. Além disso, as figurantes são retratadas como frágeis e são amparadas por Paulo, que é aplaudido pelo público que acompanha as negociações do lado de fora do banco. A esposa do jornalista aparece apenas para se preocupar com ele, cobrando-o para tomar remédios, ter cuidado, voltar para casa e outras situações que a colocam com traços maternais, até porque ela está grávida. Outra personagem, que se apaixona por um dos ladrões, parece ingênua, boba e não tem desenvolvimento o suficiente para julgamentos. A personagem com melhor desenvolvimento é uma das trabalhadoras do banco, que é firme, diferente do gerente chorão, e se voluntaria a ajudar na contagem de dinheiro dos meliantes, já que trabalha com isso. Ainda assim, ela tem pouco tempo de tela e poucas falas.
Um dos méritos do filme está na atmosfera de tensão que permeia a história. Belmonte nunca deixa a bola cair, mantendo um ritmo nervoso que realmente nos leva a imergir no suspense intrigante que se forma no impasse entre policiais e criminosos. Paira um sentimento de que uma tragédia vai acontecer a qualquer momento. A câmera ansiosa circula aqueles espaços como se fosse um dos criminosos. No entanto, Paulo ainda é o fio condutor e a câmera assume o seu ponto de vista em diversos momentos.
Dentre todas as cenas, a mais marcante é no momento em que os assaltantes sabem que podem ser mortos fora do banco, então usam os reféns como escudo. Todos estão juntos e presos em fitas crepes e, o que era para ser uma cena de resistência e união do povo, acaba também se tornando uma gambiarra, do jeito mais brasileiro que poderia ser.
Assalto à Brasileira diverte quanto a comédia e possui momentos verdadeiramente enervantes, oscilando bem entre os tons, mas falha ao não conseguir expandir a conversa. A superficialidade do roteiro desperdiça o potencial do elenco e simplifica fatores complexos como a desigualdade e a violência que é produto dela, preferindo rir dos sujeitos marginalizados do que realmente entender quem eles são e como chegaram até ali.