Aqui Não Entra Luz (Karol Maia, 2025)
A Moldura da Porta
Escrito por Letícia Negreiros
Revisado por Iane Áustria
A Moldura da Porta
Escrito por Letícia Negreiros
Revisado por Iane Áustria
17 de setembro de 2025
O plano é emoldurado por uma porta, ou está distante o suficiente para que vejamos molduras no enquadramento. Ao fundo, na distância máxima permitida pelo apartamento, vemos uma pessoa, nosso personagem principal. Poderia estar descrevendo alguns dos planos de Santiago (João Moreira Salles, 2007), mas, na realidade, descrevo um de Aqui Não Entra Luz (Karol Maia, 2025), vencedor do prêmio de Melhor Direção no 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Santiago, personagem-título de Santiago (2007)
Rosinha na casa onde trabalha em Aqui Não Entra Luz (2025)
Salles coloca como subtítulo de seu longa: “uma reflexão sobre o material bruto”. Karol Maia faz algo semelhante. Reflete não sobre o material bruto, mas sobre suas memórias, não brutas, mas brutais. Nos recebe com imagens de arquivo, afirmando ser um filme sobre sua mãe, então empregada doméstica. Nos conta que precisava saber como existir sem ser notada. Através de quatro mulheres - Rosinha, Cris, Mãe Flor e Marcelina -, tenta criar um retrato de sua mãe, Miriam, que se recusa a participar do filme em um primeiro momento.
A câmera afastada, diminuindo o personagem, carrega um peso distinto para Karol. Enquanto Salles o faz talvez inconscientemente, talvez pelo apelo estético do enquadramento, Maia sabe exatamente o impacto dessa composição. Viu a mãe ser enquadrada assim a vida inteira. A diretora toma emprestado para seu filme a visão do patrão: distante, entrevendo pelas portas, na cozinha ou longe da vida da casa. Ela liberta suas entrevistadas deste local. Santiago só fala emoldurado, pequeno em relação ao lugar, mesmo que esteja na sua própria casa. As mulheres conversando com Karol estão próximas da câmera, sentadas nos próprios sofás e cadeiras, também em suas casas. Elas, porém, dominam o quadro, são donas do que falam e do ambiente onde falam.
O longa se estende por um contraste de narrativas, não só das histórias contadas, mas da forma como o são. Enquanto a narração - feita também pela diretora - é contida, literária como quem lê um texto corrido, as entrevistas são carregadas de emoção. Cris fala com naturalidade de absurdos sofridos, crimes e tristezas dilacerantes que exemplificam os retratos de escravidão moderna que a cineasta tenta recortar. Mãe Flor não aguentaria muito no lugar da outra. “Não sou mulher de perder tempo não”, diz. As violências sofridas por Cris não são perda de tempo, mas a fala de Mãe Flor traduz uma diferença de oportunidades para lidar com as situações. Não “perdeu tempo”, pois teve outras chances. Enquanto a filha dela se formou, a de Cris foi levada, praticamente raptada, por uma patroa.
O recorte de entrevistadas é interessante. Absolutamente todas são mães e têm, ao menos, uma filha. Mais uma tentativa da diretora de achar sua própria mãe nessas mulheres. Tenta, também, achar-se nesse processo. Quando Miriam finalmente aceita participar da produção, o faz de forma silenciosa. A princípio, não quer falar, mesmo voltando atrás depois. Talvez por isso Karol Maia se estenda tanto na história que conta, já que esperava ansiosamente pela participação de Miriam.
Karol e mãe, Miriam, em foto usada em Aqui Não Entra Luz (2025)
Por muitas vezes, o longa encerra a história que conta sem terminar de fato. Não finaliza arcos narrativos ou linhas de pensamento. Com todos os artefatos disponíveis - texto, imagens, som - se encaminha ao final, mas deixa reticências no lugar em que caberia o ponto final. Não inicia algo novo, apenas segue após um encerramento. Parece um pouco perdido a respeito de quando terminar de contar. “O que levou você a fazer um longa desses?”, Marcelina questiona Karol. Socialmente falando, é muito claro. Mostrar as dores e absurdos cuja existência sabemos, mas nos recusamos a perceber. Pessoalmente, também se torna muito claro: contar a história de sua mãe. Mesmo assim, sabendo tão perfeitamente o porquê de falar, o longa se estende, não sabe a hora de finalizar sua narrativa, reiniciando incansavelmente uma história já bem exposta.