a última noite da rádio (Augusto Borges, 2025)
Até Quando Você Iria para Fazer Algo?
Escrito por Riccardo Walmir
Revisado por Gabriela de Mello
Até Quando Você Iria para Fazer Algo?
Escrito por Riccardo Walmir
Revisado por Gabriela de Mello
18 de setembro de 2025
Na abertura de um dos meus filmes favoritos, Vai trabalhar vagabundo (Hugo Carvana, 1973), o protagonista Dino é solto da cadeia em euforia dançando e pulando pelas ruas do Rio de Janeiro e cumprimentando várias pessoas, com a música de título homônimo cantada por Chico Buarque caracterizando ainda mais o clima divertido. Em A Última Noite da Rádio (Augusto Borges, 2025), longa do 4º dia da mostra Brasília do 58º FBCB, também na abertura, o protagonista Léo sai da cadeia, mas em tom melancólico, com ninguém para recebê-lo, num ambiente frio e com uma expressão de desânimo, cabisbaixo. São duas boas cenas iniciais, semelhantes na temática, mas que ditam tons diferentes que se mantêm por boa parte dos respectivos filmes.
O personagem Léo, do longa de Augusto Borges, me fez lembrar do personagem Jeff Costello de Le Samuraï (Jean-Pierre Melville, 1967), dois personagens que falam menos e agem mais. Embora a principal ação de Léo seja fumar um cigarro, essa estratégia de falar menos e agir mais é eficiente em intrigar o espectador com dúvidas que surgem principalmente relacionadas à tarefa que Léo toma para si durante o longa: ele procura Augusto, um amigo que deve dinheiro a ele e que está desaparecido. Na casa de Augusto, Léo descobre aparelhos de som antigos e uma gravação do amigo afirmando que viajou no tempo com uma máquina através do som. Não dá outra: Léo começa a recriar essa máquina.
O cenário da “rádio” do filme contém as cenas mais bonitas do longa. Na maioria delas, grande parte do quadro está completamente no escuro e a iluminação é amarelada onde a ação ocorre, semelhante a uma pintura barroca. O quadro mais bonito do filme acontece mais para a metade dele, quando Léo acorda após uma relação sexual e senta para fazer anotações. Há uma escuridão agradável e misteriosa no fundo e nos personagens, com as bordas das silhuetas iluminadas como se abraçassem os corpos. Há também um bom uso da iluminação de uma luminária, num ponto de atenção da regra dos terços no quadro.
A Madalena Arrependida (Georges de La Tour, entre 1635-1640)
A ausência de Augusto é uma força que permeia todo o longa, não apenas no personagem do Léo, mas também em sua amiga, Zói, peça chave no desfecho do longa. Aliás, ela tem uma das caracterizações mais memoráveis de todos os filmes que vi no festival, um tapa-olho, daí vem o nome - cabelo ruivo, curto e levemente ondulado, e quase sempre com uma camisa do Palmeiras, ela trabalha com contrabando de peças e vendeu algumas pro Augusto, que viajou sem pagá-la.
Não é uma ficção científica tão fantasiosa, pois seu ritmo lento e atuações mais naturalistas com momentos de contemplação fizeram A Última noite da rádio adquirir um aspecto mais cru, mas o elemento que mais traz essa sensação é o som diegético. Praticamente em todo o filme, escuta-se latidos de cachorro, músicas saindo dos carros que passam na rua, o barulho dos insetos e muitos outros sons, que fazem esse filme em sua maioria ser mais realista do que fantasioso.
O fato é que a ficção científica ficou quase como um plano de fundo na maior parte do filme, pouco explorada. O diretor utilizou de uma linguagem mais realista para falar sobre outros temas como a identidade periférica, e sobre a cidade de Ceilândia - onde é situado o longa-metragem - que, além de cenário, é quase uma personagem com momentos de uma sensibilidade interessante. O elemento fantástico foi deixado de lado e quase desapareceu até voltar com tudo na reta final. Infelizmente, o filme não me cativou tanto quanto queria, gosto da introdução e do final, mas esse último perde impacto com uma jornada que acaba sendo um pouco entediante. Não me incomoda sua natureza “lenta”, mas já acontece pouca coisa e esses poucos momentos ainda não são tão cativantes em sua construção.