a última noite da rádio (Augusto Borges, 2025)
RETALHOS DE UMA FICÇÃO ANALÓGICA
Escrito por Artur Darwich
Revisado por Paula Hong
RETALHOS DE UMA FICÇÃO ANALÓGICA
Escrito por Artur Darwich
Revisado por Paula Hong
20 de setembro de 2025
Fios por todos os lados, antenas parabólicas e rolos de fita cassete. A Última Noite da Rádio (2025), primeiro longa-metragem dirigido por Augusto Borges, conta com a dilatação do tempo, personagens que criam sombras um sobre os outros e a desconstrução do ambiente cenográfico como forma de inserir o espectador no mundo analógico-futurista, onde a viagem no tempo é uma questão sonora.
Leo, após anos preso, sai da cadeia desnorteado, à procura de seu irmão, Augusto. Quando chega em casa e vê que ele não está lá, observa tudo o que sobrou: sucata, pedaços e mais pedaços de jornais e utensílios eletrônicos. Tudo isso acumulado em cima de um dispositivo envelhecido, com porta fitas e antenas. Esse sistema, descoberto por meio de diários gravados pelo desaparecido Augusto, é uma máquina do tempo. A partir disso, Leo decide ir atrás do irmão e transforma toda a casa em um mecanismo temporal.
O desconhecido engole o longa metragem em sua estética. Iluminação dinâmica, utilizando de luzes práticas, como lanternas e abajures, tornam o ambiente sempre marcado por uma dupla significação. O artificial (opaco) da produção fílmica em sua colorização apressada e atuação mecânica, e o transparente por meio do não-exposto, da escuridão que os personagens criam, desenvolvem os espaços dentro da limitação e da distância, rostos escurecidos em contra-luz que criam silhuetas uns sobre os outros.
A artificialidade toma o filme por completo, passando pelo tratamento de voz dos atores, sempre abafados e distorcidos, que transborda a rádio e a atrofiação relacional, a cor errática e inconsistente, músicas inseridas de forma seca, todos esses elementos fazem a experiência reforçar o caráter plástico da fusão entre o som e a carne, entre a rádio, a memória e a emoção.
O futuro é visto como calamidade. O vermelho, cor que preenche o filme desde o início, é o prenúncio do incêndio futuro, do desastre ambiental que virá em 2027, anunciado por Augusto. Leo, fumando incansavelmente durante toda narrativa, marca esse processo, as cinzas de seu cigarro são parte das cinzas que estarão sobre Brasília anos depois.
A dualidade entre o desastre, as queimadas, as cidades vazias alertadas pelo viajante temporal ausente e a tecnologia como esperança de reencontro, dançam até o clímax onde, assumindo a vingança, Leo é o portador da destruição e então tudo começa a desabar. Zói, uma personagem perdida durante a história com objetivos confusos e de súbita devoção a Leo, é distribuidora das peças que o ex-presidiário usa na casa-máquina. Ela, responsável por atirar no protagonista, que está com a máquina pronta e ativada, assume a posição de vilã em uma sequência de planos bêbados e trêmulos e brilhos que simulam os tiros, em que os dois ficam feridos, Leo morre baleado, perto de viajar no tempo.
A Última Noite da Rádio é o primo mais novo, ainda apreendendo os mecanismos e a linguagem, do cinema ceilandense, conhecido por nomes como Adirley Queiroz. De texto repetitivo e prolongado, suas qualidades estão na dinâmica das luzes e preenchimento criativo dos espaços, assumindo a máquina do tempo como parte do personagem e de toda a casa cênica. Augusto Borges se destaca como potencial nome para o cinema brasiliense de ficção científica, aproveitando da linguagem cinematográfica e dos outros usos da tecnologia como espaço de emoção e interação com o fantástico.