A falecida (Leon Hirszman, 1965)
Dançar com a morte e alcançar as estrelas
Escrito por Maria Luiza Mesquita e Neurilan Lima
Revisado por Fillipe Medeiros
Dançar com a morte e alcançar as estrelas
Escrito por Maria Luiza Mesquita e Neurilan Lima
Revisado por Fillipe Medeiros
17 de setembro de 2025
A Falecida (Leon Hirszman, 1965)
Mais uma vez, a Mostra 60 anos do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro nos traz um clássico do Cinema Novo. Depois de São Paulo, Sociedade Anônima (Luiz Sérgio Person, 1965), a mostra apresenta A Falecida (Leon Hirszman, 1965), adaptação da peça de Nelson Rodrigues. O filme, além de exaltar e honrar a obra de Nelson, também traz consigo a estreia da grande atriz Fernanda Montenegro - já consagrada pelo Teatro Brasileiro de Comédia - no cinema. Sua atuação magistral no papel de Zulmira marca para sempre a carreira da atriz, que foi agraciada com o Troféu Candango naquele mesmo ano e permanece até hoje como umas das maiores artistas do país.
O filme, exibido em remasterização 2K, retrata a história de Zulmira, uma mulher obcecada pela própria morte. A protagonista reflete o descontentamento diante de um casamento fracassado e uma situação financeira precária, com o marido desempregado. A revolta que Zulmira sente por viver em um mundo sem perspectiva é a principal fórmula para o seu ressentimento e para a fixação em deixar de existir.
A obra começa com uma consulta à cartomante. Zulmira busca respostas sobre o porquê de sua condição: sente-se mal e tem tosses frequentes. O único retorno das cartas de tarô a mandam tomar cuidado com uma mulher loira. Encucada, a protagonista desabafa ao marido, Toninho (Ivan Cândido), homem viciado em jogos de futebol que não demonstra se importar com a preocupação da esposa. Isso, unido à suspeita de que a suposta loira seja sua prima e vizinha, Glorinha, faz com que o desejo pela própria morte surja como única alternativa de alcançar triunfo diante de sua realidade.
A ideia da morte como maior momento de glória remete, curiosamente, a um outro sucesso com Fernanda Montenegro, dessa vez no papel da cartomante, anos depois. A Hora da Estrela (Suzana Amaral, 1985) adapta o romance de Clarice Lispector e traz às telas a complexa Macabéa (Marcélia Cartaxo), uma mulher tida por todos como um ser insignificante no mundo. Depois de perder o namorado, Macabéa vai à cartomante em busca de respostas para guiá-la. Lá ela recebe a notícia de que sua vida iria mudar completamente e de que ela sairia vitoriosa em meio à sua condição de vida miserável. Ao sair da casa da cartomante, Macabéa é atropelada e morre, sendo o momento de sua morte o mais impactante e glorioso de toda a sua vida - aquela foi a sua “hora de estrela”.
Fernanda Montenegro e Marcélia Cartaxo em “A Hora da Estrela” (Suzana Amaral, 1985)
Ao longo dos três atos da obra de Hirszman, acompanhamos de perto como a mente de Zulmira transita entre a mania hipocondríaca de achar que vai morrer e a obsessão de ter uma morte gloriosa para impressionar a prima. Seu anseio pela morte chega ao espectador através da atuação marcante de Fernanda na cena em que a protagonista, em meio à gripe misteriosa, decide tomar um banho de chuva. Esse é o ponto impactante da narrativa em que percebemos que o fim deixa de ser um inimigo para Zulmira e passa a ser sua maior esperança.
Em determinado momento do filme, Zulmira passa a redirecionar sua crença à teofilia, prática de oração da Igreja Teofilista - criada por Nelson Rodrigues para compor algumas de suas peças - corrente que acredita que a força divina é maior na cura de doenças do que a própria medicina. Nessa visita aos círculos de oração, é possível enxergar Zulmira em uma tentativa de entregar se à fé, como se estivesse na busca da cura de sua doença e do perdão por almejar a própria morte. Ela recorre também aos hinos cantados e tocados durante as rodas de pregação, para fazer parte da sua própria cerimônia de sepultamento, um pedido feito aos funcionários da funerária e que integra a sua lista de desejos finais.
O velório luxuoso, o caixão mais caro e as flores mais cheirosas; a ideia de um funeral ostensivo, no intuito de redimir sua vida deplorável, começa a mexer ainda mais com a cabeça de Zulmira. A ponto de planejar o orçamento do próprio enterro, o desejo da morte se torna a insanidade de querer se vingar da própria prima e de implorar ao esposo que a deixe morrer. Estes fatores refletem a realidade da protagonista e a sua insegurança diante de um sistema que negligencia sua existência. Hirszman utiliza desses detalhes como instrumento de denúncia social, onde a maior conquista de Zulmira seria ter um velório digno, e no fim, nem a mínima dignidade que tanto se almeja pode ser alcançada.
Assim, Leon Hirszman nos traz essa tragédia carioca marcada pelo tom dramático e cômico. Sua direção nos transmite a melancolia e a morbidez da protagonista e do ambiente que a cerca, o uso dos closes difunde a sensação claustrofóbica da vida infeliz de Zulmira, presa à sua agonia. Esse fator, unido ao texto base de Nelson Rodrigues e à brilhante atuação de Fernanda Montenegro transforma o filme em um espetáculo, tal como uma peça de teatro, consagrando essa obra como um dos grandes clássicos do Cinema Novo brasileiro. Aqui, dançar com a morte não é tão doloroso quanto aparenta, ainda mais se for para se tornar uma estrela.